CONVIVENDO COM OS DANOS



Há casos em que o câncer ocasiona danos significativos e irreversíveis.

A situação apresenta-se particularmente grave quando ocorrem mutilações (partes do corpo são removidas) e lesões (danificação irreversível de aparência).

 

Estes são alguns poucos exemplos de danos de grande impacto físico, fisiológico e psíquico:

Laringectomia: retirada da laringe; o indivíduo vê-se desprovido da fala;

Rinectomia (ressecção do nariz) e maxilectomia: notável deformação da face (explorada na peça “O Fantasma da Ópera”, em que o protagonista usa permanentemente uma máscara);

Mastectomia: remoção de mama, gerando, entre outras, dificuldades sociais e relacionadas com a sexualidade;

Colostomia: utilização de dispositivo de coleta, com impacto sobre a imagem corporal e a autoestima;

Danos mentais, dependendo da região do cérebro afetada; os efeitos podem ser inúmeros.

Em todos esses casos, os efeitos psíquicos (também sobre familiares) são notáveis; sempre há o risco do isolamento social; à família cabe o importante papel de dar apoio e estimular continuamente, para que a pessoa persista na missão de se reinserir na vida.

 

É IMPORTANTE QUE A PESSOA TENHA PLENA CONSCIÊNCIA DE QUE:

ela não se trata de uma exceção;

a vida SEMPRE será maior do que o dano.

 

A principal dificuldade em se conviver com os danos é de natureza CULTURAL.

Nos países marcados pela participação em grandes conflitos bélicos, observam-se pessoas com amputações e lesões gravíssimas nos mais diversos ambientes. Elas valem-se de cadeiras de rodas e outros dispositivos para se locomover e comparecem a todos os tipos de eventos e locais. Viajam, trabalham, divertem-se, participam.

Nesses países, a EXPOSIÇÃO DO DANO FÍSICO INCORPOROU-SE À CULTURA.

O Brasil tem muito a avançar nesse aspecto.

 

Sem dúvida, a profissão, o trabalho, desempenham papel de grande importância na reincorporação da pessoa às atividades da vida diária.

Um profissional que trabalha praticamente isolado, com mínimas intervenções interpessoais (como contadores, técnicos de laboratório, operadores de almoxarifado, mecânicos de linha de produção, atendentes de call center etc.) encontra-se em ambiente facilitador da reinserção.

O mesmo não acontece em profissões de intenso relacionamento com clientes e colegas de trabalho (esteticistas, fisioculturistas, professores, vendedores, atendentes de público etc.), porque as atividades realizam-se no e através do contato com terceiros. Nesses casos, um defeito na face, por exemplo, pode ser percebido como impeditivo para o exercício do trabalho.

Surgem, então, duas FORÇAS DIFICULTADORAS:

– o receio do próprio indivíduo pela reação das demais pessoas e

– a reação das pessoas ao contato com o indivíduo que apresenta o dano.

Nesses casos, o desafio da reabilitação psicossocial torna-se complexo e pode demandar criterioso suporte psicológico especializado, para auxiliar o indivíduo (e, também, seus familiares) nessa travessia desafiadora.

O objetivo da reabilitação psicossocial é permitir ao indivíduo retomar o trabalho, a vida familiar e as atividades de lazer.

Para isso, a reabilitação psicossocial deve considerar:

– as características psicológicas do doente (grau de dependência, temores, motivações, experiências, expectativas);

– a doença em si (a natureza das lesões, os tratamentos de manutenção, as perspectivas futuras; experiências de outras pessoas em situação semelhante);

– os fatores culturais que influenciam as reações das pessoas.

O indivíduo não deve receber nem compaixão, nem repulsa. Seu desafio consiste em ser aceito.

 

É IMPORTANTE ENFATIZAR:

– A REDE SOCIAL É VASTA.

– EXISTE ESPAÇO PARA TODAS AS PESSOAS.

– POR DIFÍCIL QUE POSSA PARECER, ABREM-SE CAMINHOS PARA QUEM PROCURA ENCONTRAR UM LUGAR.

 

Exemplo notável é dado pelos PINTORES COM A BOCA E COM OS PÉS.

A seguir, encontra-se reproduzido o texto de abertura do SITE da Associação desses profissionais:

A Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, fundada em 1956 por Erich Stegmann, tem proporcionado uma condição de vida independente para os seus membros, verdadeiros artistas, que não podem fazer o uso de suas mãos para a prática da pintura. Todos os membros dessa Associação Internacional se beneficiam da venda da reprodução de suas pinturas transformadas em cartões de Natal, calendários e outras peças de grande expressão artística”.

São trabalhos de alta qualidade, que granjearam uma grande quantidade de compradores por todo o mundo. No Brasil, a sede encontra-se em São Paulo.

 

O tratamento do câncer encerra-se, mas a RECUPERAÇÃO DOS DANOS tem continuidade.

PERSISTÊNCIA é a palavra-chave.

Mesmo quando os danos são definitivos, o trabalho de recuperação prossegue com o objetivo de ATENUAR OS EFEITOS.

 

SEMPRE deve-se ter em vista o tripé:

QUALIDADE DE VIDA

IMAGEM PESSOAL e

AUTONOMIA.

 

No caso de DANOS FÍSICOS, a pessoa deve ajustar-se ao LIMITE DO POSSÍVEL. Veja-se o exemplo dos Pintores sem Mãos: muita coisa não lhe é permitida, porém, ainda assim, pintam utilizando bocas e pés!

A reabilitação deve ter em vista, também, o futuro, para que uma limitação existente não venha a se agravar e trazer outros comprometimentos.

Outro cuidado é evitar a interrupção de tratamento, para que não se percam os benefícios já obtidos.

A reabilitação pode buscar compensação de funções prejudicadas. Por exemplo: o indivíduo tem uma perna amputada; buscará fazer com que a perna saudável ganhe novas forças e flexibilidade, em um processo de adaptação. A fisioterapia pode ser altamente recomendável.

 

Os DANOS FISIOLÓGICOS não apresentam efeito estético, mas determinam graves alterações no funcionamento do organismo.

Ocorrem, por exemplo, quando há retirada de grande parte do estômago e intestino, trazendo como consequência a necessidade de adaptações de todo o processo que envolve o trânsito gastrointestinal.

O apoio da EQUIPE MULTIDISCIPLINAR costuma ser essencial nesta situação. A alimentação, por exemplo, deverá ser balanceada e ajustada à nova realidade, sugerindo o suporte de profissional especializado em nutrição.

 

Os DANOS PSICOLÓGICOS também deverão ser superados. Muitas vezes, as pessoas apresentam reações emocionais nesta fase, embora tenham superado com aparente segurança todo o tratamento. Os sentimentos, as emoções permaneceram represados e, finalmente, as angústias transbordam.

Entre os danos psicológicos, encontram-se os distúrbios do sono, da personalidade, depressão, ansiedade entre outros.

Duas recomendações são particularmente importantes:

PRESTAR ATENÇÃO AO SONO. Do paciente e do cuidador principal, que também passa pelo fenômeno das emoções represadas. Muita atenção às queixas!

RESOLVER AS DIFICULDADES COM O SONO ANTES QUE SE TORNEM UM PROBLEMA CRÔNICO. Ajuda profissional é o melhor caminho.

A observação de alterações de comportamento da pessoa é de grande importância, para que se possa atuar o mais rapidamente possível.

Em todas as situações, a atenção da família é de grande importância.

 

AUTOESTIMA

Uma das estratégias para lidar com os abalos emocionais dos pacientes consiste em encontrar maneiras para lhes melhorar a autoestima.

São fatores favorecedores:

– a presença de amigos,

– o trabalho, a convivência com os colegas,

– a troca de mensagens por meio de redes sociais,

– a participação em grupos ou associações de pessoas com dificuldades semelhantes,

envolvimento nas questões da casa, no limite das condições físicas, fisiológicas e psicológicas.

A participação em atividades é altamente positiva; quanto mais, melhor.

O envolvimento na vida doméstica, a sensação de pertencer, é muito importante.

 

Os familiares desempenham um papel importantíssimo na missão de conseguir que a pessoa sempre mantenha a esperança no completo restabelecimento. Suas fisionomias, o estado de espírito que demonstram, a maneira como conversam, a decoração do ambiente, o “clima” dominante no lar: tudo possui importância.

Ao final da cura, todos estarão mais fortalecidos e prevalecerá a chama da esperança.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

LEITURAS RECOMENDADAS:

Cordeiro, A. C. & Stabenow, E. Câncer de cabeça e pescoço. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 82-91). São Paulo, Summus, 2008.

Cunha, A. D. & Rumen, F. A. Reabilitação social do paciente com câncer. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 315-350). São Paulo, Summus, 2008.

Macieira, R.C. & Maluf, M. F. Sexualidade e câncer. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 303-314). São Paulo, Summus, 2008.

Schliemann, A. L. A morte e o morrer na infância e adolescência. In: Incontri, D.; Santos, F. S. (Org.). A arte de morrer – visões plurais (pp. 50-63). Bragança Paulista: Coenius.

Setúbal, D. C. & Dóro, M. P. Transplante de célula-tronco hematopoiética: visão geral. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 172-186). São Paulo, Summus, 2008.

Silva, G. M. & Valle, E. R. M. A reinserção escolar de crianças com câncer. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 517-528). São Paulo, Summus, 2008.

Veit, M. T. & Barros, L. H. C. Psicooncologia: definições e áreas de atuação. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 15-19). São Paulo, Summus, 2008.

Perina, E. M., Mastellaro, M. J. & Nucci, N. A. G. Efeitos tardios do tratamento do câncer na infância e na adolescência. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 15-19). São Paulo, Summus, 2008.