EFEITOS COLATERAIS DOS TRATAMENTOS



Os medicamentos utilizados nos tratamentos de câncer são reconhecidamente agressivos. Combatem as células do câncer; entretanto, também produzem danos ao corpo, os conhecidos efeitos colaterais.

São muitos os efeitos colaterais relatados por pacientes, familiares e cuidadores. Esses efeitos dependem:

– da medicação,

– das características da doença,

– do estágio em que ela se encontra,

– da maneira como os medicamentos são administrados (dosagem, intervalo etc.),

– das condições físicas, fisiológicas e psicológicas de cada paciente.

Insistimos sempre em afirmar: cada caso é um caso.

 

Seguem-se alguns exemplos de efeitos colaterais dos tratamentos por meio de quimioterapia, todos de intensidade, gravidade e tempo de duração altamente variáveis:

transtornos de funcionamento do organismo. São inúmeros, entre eles: alteração do ritmo cardíaco, da pressão arterial, do funcionamento intestinal (interrupção do funcionamento ou diarreia), insônia (que pode ocorrer no início, no transcorrer ou no final do sono) etc.;

alterações do paladar: há pacientes que sofrem significativa perda ou alteração do paladar e, em consequência, diminuição de apetite;

boca seca, dificultando a deglutição dos alimentos;

neuropatia periférica: sensação de dormência e ou formigamento nos membros, principalmente em pés e mãos; para alguns pacientes, há perda de sensibilidade epidérmica, enquanto outros experimentam hipersensibilidade;

transformações de humor;

alucinações: a pessoa percebe objetos – vivos ou não – que, de fato, não existem;

ilusões: a pessoa vê um objeto mas tem a nítida percepção de que enxerga outra coisa (por exemplo, um vaso é percebido como se fosse um gato);

delírios: o paciente acredita que fatos imaginários são reais (por exemplo, que conversou com alguém que não esteve ali presente ou que já faleceu);

transtornos mentais diversos, sendo a depressão um dos mais preocupantes, porque compromete a disposição do indivíduo para o tratamento;

náuseas e vômitos, que podem ocorrer durante a quimioterapia e prolongar-se por alguns dias após o término;

perda da libido;

dor de cabeça;

fadiga etc.

A lista é extensa.

Muitos dos efeitos colaterais merecem rápida e especializada intervenção, como a mucosite, uma grave inflamação de mucosa, que afeta todo o percurso gastrointestinal, desde a cavidade bucal. Quando ela ocorre na cavidade bucal, o paciente enfrenta grande dificuldade para alimentar-se, por isso, deve-se atuar preventivamente, na medida do possível.

Também a radioterapia provoca efeitos colaterais significativos, relacionados com a sexualidade, o funcionamento intestinal e outros.

Todos esses efeitos podem combinar-se e agravar-se ainda mais quando o tratamento combina a ação quimioterápica com a radioterápica.

Idealmente, ao menor sinal da manifestação de um efeito colateral, é necessária a adoção de procedimento adequado para neutralizá-lo ou, no mínimo, para orientar o paciente e seus familiares de tal forma que se consiga conviver, da melhor forma possível, com o efeito durante o tempo necessário.

Esse tipo de intervenção poderá, para ser eficaz, exigir o suporte de profissionais especializados: médico, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo.

O objetivo dessas intervenções sempre será tornar mais suportáveis a quimioterapia e a radioterapia.

Por esse motivo, é altamente recomendável que os familiares:

  • prestem muita atenção aos comportamentos e ao que ocorre com o paciente. Este, pelo fato de todos possuírem seus afazeres, pode permanecer muito tempo só, o que favorece a desatenção aos efeitos colaterais físicos e fisiológicos e favorece o surgimento de transtornos de natureza psíquica;  micção, evacuação, temperatura e outros sinais são de grande importância para indicar o estado geral do organismo;
  • desenvolvam uma rotina de observação do paciente: o aparecimento de qualquer mancha na pele, o sinal de uma pequena e possível escara, tudo que fuja da normalidade merece verificação; essa rotina possibilita que as intervenções não dependam apenas de relatos ou reclamação do paciente, que pode não estar plenamente consciente do que acontece com ele mesmo;
  • atuem com agilidade. Quanto maior for a presteza na atuação, tanto mais as ocorrências deixarão de se transformar em emergências e, portanto, maior será a tranquilidade para o paciente e para os familiares nesse período cercado de fatores adversos;
  • tenham preparados os procedimentos para lidar com os possíveis efeitos colaterais. Isso compreende identificar os especialistas adequados, conforme já citado, para que participem do tratamento, porque eles saberão a melhor maneira de lidar com aspectos muito específicos. Essa é uma grande vantagem de se dispor de uma equipe multidisciplinar para o atendimento.

O correto diagnóstico, no caso de efeito colateral, é de grande importância. Por exemplo, um paciente pode apresentar muita dificuldade para dormir; essa dificuldade, entretanto, pode originar-se de um estado de ansiedade ou de depressão, que o médico saberá diagnosticar. É comum que um efeito colateral possa receber a influência de vários fatores e estabelecer a importância de cada um deles é necessário para uma atuação eficiente.

 

TRANSTORNOS MENTAIS

Esses tipos de transtornos, em decorrência do estresse que a doença e o tratamento representam para o paciente e seus familiares, são bastante comuns.

As modificações de comportamento constituem o lado visível dos transtornos de natureza mental.

Por exemplo, um paciente que perde a disposição habitual, que lhe era característica, para ouvir música, ler, atender telefonemas ou conversar com as visitas apresenta uma modificação no humor; ela será claramente percebida pelos familiares, que estranharão seus comportamentos de isolamento.

A ocorrência de um ou mais transtornos psicológicos, físicos e fisiológicos pode tornar difícil a tarefa de lidar com o paciente, especialmente se ele apresenta elevada dependência e necessita do apoio de outras pessoas para as atividades cotidianas.

A pessoa pode tornar-se irritável; muitas tornam-se pouco comunicativos; outras mostram-se com reduzida disposição para cooperar nos procedimentos; há aquelas que perdem a tolerância às menores contrariedades . Há pacientes particularmente “difíceis”!

Deve-se também estar atento à ocorrência de transtornos mentais entre familiares, especialmente os cuidadores.

A preocupação contínua, a necessidade de manter-se atento a todos os movimentos de um paciente acamado, a busca de conciliar atividades profissionais e domésticas com os cuidados indispensáveis ao paciente, podem desencadear graves transtornos emocionais nas pessoas responsáveis.

Muitas vezes, uma única pessoa precisa dar conta de todas as incumbências, descuidando-se da própria saúde. Também não é incomum que essa pessoa deixe transparecer todo o estresse do exaustivo período de tratamento, após a alta definitiva, quando ela consegue relaxar porque seus cuidados deixam de ser necessários! Aí os papéis invertem-se: o(a) ex-paciente passa a apoiar o(a) ex-cuidador(a)!

 

PERSISTÊNCIA COM PACIÊNCIA

Os familiares devem ser pacientes, porém, firmes e perseverantes no cumprimento de todas as prescrições, empenhando-se na realização de todos os procedimentos recomendados para o tratamento.

Alguns desses procedimentos podem ser cansativos, trabalhosos, como a higienização da cavidade bucal para a prevenção de mucosite e até mesmo a troca de roupa. Dependendo do estado físico do paciente, a atividade de banho pode exigir grande empenho do paciente e do cuidador.

A nutrição, por exemplo, constitui um fator-chave no transcorrer das quimioterapias, pois o paciente poderá manifestar náusea, vômito, dificuldade de deglutir, alteração no paladar, distúrbios digestivos; todo esse quadro dificultará a alimentação. O apoio de nutricionista, nesse etapa, pode ser decisivo para encontrar soluções que conciliem as limitações do paciente com as exigências de reposição de nutrientes.

A família não deve esmorecer em decorrência das possíveis reações comportamentais do paciente.

 

HIDRATAÇÃO

A hidratação é de grande importância para os pacientes de quimioterapia e radioterapia. Na radioterapia a hidratação requer um cuidado especial.

O organismo precisa eliminar as substâncias administradas e o caminho para isso encontra-se na ingestão de muito líquido. Entretanto, por hábito, é comum que muitas pessoas ingiram pouco líquido.

A estratégia é: criar uma rotina de hidratação.

O método indicado para isso é simples: manter uma jarra com água ao lado do paciente e conferir o consumo! Mesmo que, para isso, seja necessário valer-se de um “timer” (dispositivo simples para sinalização do tempo, o mesmo utilizado pelos cozinheiros profissionais), que irá disparar de tempos em tempos.

Uma vez criada a rotina de hidratação, a pessoa torna-se condicionada a beber regularmente.

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Os efeitos colaterais, contudo, atenuam-se pouco a pouco.

O organismo recupera-se!

As quimioterapias e radioterapias possuem durações variáveis. Mas, chegarão ao fim. Os efeitos colaterais acabarão pouco a pouco. Tudo voltará ao normal!

Todos perceberão que as dificuldades impostas pelo tratamento valeram a pena!

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

LEITURA RECOMENDADA:

Graner, K. M., Cezar, L. T. S. & Teng, C. T. Transtornos do humor em psicooncologia. In Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 243-256). São Paulo: Summus, 2008.