EQUILÍBRIO EMOCIONAL NO TRATAMENTO DO CÂNCER



Os efeitos emocionais, no transcorrer dos tratamentos de câncer, costumam ser intensos e, dependendo de como são diagnosticados e tratados, podem:

  • afetar o tratamento;
  • ser duradouros;
  • ocasionar graves prejuízos ao paciente e aos familiares.

Transtornos emocionais podem ocorrer e o diagnóstico SEMPRE deve ser feito por profissional especializado.

Da mesma maneira que cada caso de câncer é um caso, as reações emocionais das pessoas também variam em função de suas características. A simples observação do comportamento ou de suas modificações não basta para estabelecer o que está acontecendo com o indivíduo.

 

ANTES DO TRATAMENTO

Os transtornos emocionais podem iniciar-se antes do tratamento da doença, como já ficou indicado em artigos anteriores. Em capítulos iniciais deste “site”, foram destacados alguns dilemas comuns a muitos pacientes:

– alguns tentam ignorar os sinais e sintomas, acreditando que será algo passageiro;

– outros buscam meios de evitar o médico e o provável diagnóstico;

– há os que vão ao médico, mas protelam a realização dos exames solicitados;

– muitos iniciam tratamentos “alternativos” com a esperança de que eles eliminem os sinais e sintomas ameaçadores;

– outros apegam-se à fé, esperando o benefício da cura pela força espiritual.

Esses comportamentos combinam-se perigosamente e a consequência pode ser o danoso atraso no diagnóstico da doença e no estabelecimento do plano de tratamento.

Enquanto essas questões arrastam-se, o estado emocional do paciente tende a piorar.

Surgem reações que podem ir da depressão à ansiedade, do aumento da agressividade ao desânimo. Os distúrbios do sono são os primeiros indicadores de que as preocupações com os sinais e sintomas prejudicam a qualidade de vida do paciente; entre eles, as insônias em suas diferentes formas: inicial, intermediária, terminal.

A busca de remédios para atenuar a dificuldade de dormir constitui outro risco, pois esses medicamentos ocasionam diversos efeitos sobre o organismo.

É compreensível, portanto, que já no início do tratamento o estado emocional de pacientes e familiares encontre-se afetado.

Somam-se, depois, as apreensões causadas pelo tratamento em si, que se iniciam com a hospitalização (se houver) e continuam com os procedimentos do processo de combate à doença.

 

DURANTE E APÓS O TRATAMENTO

Diagnosticado o câncer e iniciado o tratamento – cujo primeiro passo pode ser a intervenção cirúrgica – começam a surgir muitos sentimentos, às vezes, contraditórios.

Sentimentos de ansiedade, raiva, culpa, tristeza – já existentes ou não – ocorrem corriqueiramente e podem acentuar-se. Eles transparecem no comportamento de todos: pacientes e familiares.

  • Culpa por não ter agido antes. Todo sentimento de culpa deve ser eliminado. O importante, agora, não é olhar para o passado: em vez disso, deve-se concentrar as energias no tratamento, focalizando o futuro.
  • Ansiedade pelo desconhecimento de como transcorrerá o processo de tratamento; haverá ou não a cura? Existirão sequelas, dores, sofrimentos? Como serão suportados os custos? Paciente e familiares devem entender que os tratamentos podem ser muito agressivos, contudo, cada vez mais os medicamentos são aperfeiçoados e também melhora o atendimento aos pacientes, por meio da ação multidisciplinar.
  • Raiva pela doença em si. Esse tema já foi abordado neste “site”. Não há motivo para raiva ou qualquer sentimento semelhante. Quando o paciente pergunta-se “por que eu?”, deve considerar igualmente a outra pergunta “por que não eu?”. O câncer atinge ampla proporção da população e não há como uma pessoa assegurar-se de que não está sujeita à doença.
  • Tristeza pela perspectiva adversa, pelas possíveis consequências. A tristeza não deve impedir que as ações de enfrentamento da doença recebam todas as energias e atenções de pacientes e familiares. As atividades devem ser repensadas. A vida continua e a melhor coisa a fazer é encará-la com otimismo e disposição, com a satisfação de poder enfrentar e vencer a doença.

Os tratamentos, contudo, costumam exigir grande esforço de paciente e cuidadores.

 

ATENÇÃO AOS FAMILIARES CUIDADORES

Nesta etapa, os familiares cuidadores devem estar atentos às suas próprias condições físicas e emocionais, principalmente quando existe um único cuidador principal, que se vê forçado a absorver a responsabilidade pela maioria das tarefas.

O familiar cuidador, nesta situação, é forçado a reorganizar sua vida e enfrenta grande estresse por motivos como os seguintes:

cansaço físico pela quantidade de tarefas que precisam ser realizadas e conciliadas: cuidar da residência, transportar o paciente para quimioterapia e radioterapia, dar suporte ao paciente em suas atividades, atender outros membros da família. Esta situação agrava-se quando há um único cuidador principal, que se vê forçado a absorver a responsabilidade pela maioria das tarefas;

cansaço mental, pela contemplação da precariedade (ainda que passageira) das condições físicas do paciente, pela preocupação sempre presente em não permitir que nada saia do programado, pelas dificuldades que poderá (e, com frequência, é o que acontece) enfrentar no relacionamento com entidades de saúde (marcação dos procedimentos, coleta de material etc.) e de seguro (autorização de procedimentos);

alteração de hábitos: modificação do período de repouso, sono frequentemente interrompido, modificação de horários de refeições, limitação dos cuidados pessoais, abandono de atividades etc.

Durante o tratamento, facilmente o cuidador torna-se extremamente sensível a qualquer movimento do paciente; passa a ter grande dificuldade para conciliar e manter o sono; altera seu ritmo alimentar. Essas consequências todas agravam-se ainda mais quando o paciente é uma criança ou idoso, naturalmente dependente do cuidador.

As consequências sobre o sono são de grande importância e merecem muita atenção, tanto em relação ao paciente, quanto ao cuidador.

A qualidade do sono é fundamental para manter o equilíbrio emocional da pessoa e deve ser encarada com extrema seriedade por todos.

Durante e logo após o tratamento, entretanto, é comum que o principal cuidador apresente descuido com o autocuidado. Afinal, todas as energias e atenções encontram-se concentradas no paciente.

Portanto, os familiares devem manter-se alertas tanto para o que acontece com o paciente, como o que acontece com o cuidador.

É preciso sempre ter presente que o cuidador deve cuidar-se para bem cuidar do paciente.

Outro motivo de estresse, do paciente e dos familiares, é a remoção – quando necessária – de animais de estimação (obrigatória, por exemplo, no transplante de medula). O animal de estimação, muitas vezes, desempenha importante papel na estrutura emocional da família. Por esse motivo, a destinação do animal deve ser buscada assim que se tenha notícia dessa necessidade, para tranquilizar e satisfazer, na medida do possível, a todos.

 

REAÇÕES POSITIVAS

Os destaques aqui apresentados em relação às questões emocionais que cercam os tratamentos não impedem que estes também tragam efeitos positivos.

– Há pacientes que mostram grande empenho na recuperação: modificam hábitos, procuram realizar todos os procedimentos com a máxima perfeição, buscam alternativas para dar continuidade a seus afazeres e compromissos na medida do possível, não deixam transparecer desconfortos, limitam as queixas ao estritamente indispensável, procuram manter-se bem humorados.

– Muitos pacientes, devido o tratamento, apresentam melhorias em quadros clínicos que fugiam ao esperado, porque o próprio tratamento levou-os a disciplinar-se e, com isso, apresentaram um melhora geral em outros aspectos da saúde. Essa mesma situação verifica-se entre cuidadores: no afã de poder dedicar-se ao paciente, perdem peso, abandonam vícios, enfim, passam a gozar de uma saúde que já não mais conheciam.

– A doença pode ser motivo de aproximação entre familiares e amigos, reatando laços, estabelecendo novas relações de companheirismo e colaboração, tudo isso contribuindo para a melhoria do estado emocional de todos.

Em síntese: situações que são percebidas como negativas para uns, podem ser estimulantes para outros. Por esse motivo, é de grande importância a maneira como a família encara o tratamento.

 

ALGUMAS RECOMENDAÇÕES

– Todos os familiares, e especialmente os cuidadores, devem conscientizar-se de que é importante cuidar-se para cuidar bem.

– O ambiente deve sempre refletir otimismo. O TOM  das conversas deve ser positivo. O olhar deve estar sempre colocado no futuro e nos benefícios que a recuperação trará.

– A família deve confiar na equipe médica. Não há motivo para comparar tratamentos e reações: as doenças não são iguais. Os pacientes não são os mesmos. Cada um reage à sua maneira.

– Informação É importante. Os familiares devem informar-se a respeito da doença e do tratamento, com o objetivo de tranquilizar o paciente.

– O paciente deve receber notícias que o mantenham atualizado. Ele deve perceber que continua a ser parte integrante da vida familiar.

– Quando os alterações de comportamento do paciente ou dos cuidadores dificultam o tratamento e/ou indicam a existência de grande estresse, e/ou sugerem prejuízo para o equilíbrio emocional da pessoa, é importante que qualquer tentativa de uso de medicação seja feita por meio de profissional qualificado, capaz de diagnosticar e prescrever corretamente.

– A manutenção das rotinas do lar, na medida do possível, é de grande valor emocional. Por exemplo: a participação de todos à mesa de refeições. O compartilhamento das refeições possui grande valor afetivo.

As questões que envolvem a VIDA DIÁRIA do paciente são de grande importância durante todo o transcorrer do tratamento. Elas serão tratadas em próximo artigo.

 

Fonte:

Fiorelli, J. O.; Maciel, R. C. R. Câncer e família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2016.