HOSPITALIZAÇÃO: CRIANÇAS, ADOLESCENTES, IDOSOS



Em artigo anterior, tratou-se de questões emocionais que cercam a decisão pela hospitalização, comum em tratamentos de câncer, para a realização de intervenção cirúrgica e/ou procedimentos de grande complexidade.

As questões emocionais, compreensivelmente, tornam-se muito mais dolorosas quando se trata de crianças, adolescentes e idosos.

 

CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Crianças e adolescentes encontram-se em situação de total dependência dos pais, que assumem toda a responsabilidade por eles e que, em geral, são os que dão assistência e lhes proporcionam todos os cuidados.

É comum que a presença dos filhos constitua um fator de grande importância, ou mesmo decisivo, para preencher e dar sentido à vida da família. Nos filhos, são depositados os sonhos e as esperanças do casal.

O diagnóstico de câncer traz, para os pais, uma mensagem profundamente dolorosa: o que acontece com seus filhos escapa-lhes ao poder de ação. Dependem de outras pessoas para agir. Para agravar, a necessidade de hospitalização conta-lhes, de um momento para outro, que não poderão continuar a exercer a total responsabilidade sobre os filhos.

Hospitalizar significa transferir, para vários profissionais, todas as ações e decisões que possam afetar-lhes a saúde e, mais ainda, a sobrevivência.

A dor torna-se ainda maior quando o cuidado com o paciente ocupa substancial tempo dos pais, que se condicionam a gravitar em torno do doente e da doença, na condição de exclusivos (ou principais) cuidadores.

Esses sentimentos agravam-se quando existem animais domésticos, principalmente cães. O sofrimento dos animais pela separação agrava o sofrimento dos pais.

É importante para os pais, neste momento, compreender a questão sob a ótica da criança ou do adolescente.

Crianças e adolescentes perdem o poder sobre os pais. É bastante comum que a doença desenvolva, nas relações familiares, uma condição em que o doente passa a exercer poder sobre os cuidadores; muitas vezes, isso fica acentuado pela fragilidade que a doença lhes confere.

Ao dar entrada no hospital, essa situação transforma-se imediata e radicalmente. O resultado é a submissão total às determinações dos profissionais cuidadores. Para isso contribui a insegurança causada pela perda do ambiente, das referências, dos contatos com colegas e com os locais que frequentava, como a escola.

De imediato a criança ou o adolescente compreendem que muitas pessoas do hospital exercerão autoridade e não haverá como negociar. As rotinas de trabalho prevalecerão: o banho e as refeições serão feitos na hora certa; a alimentação será aquela que for indicada. Não mais existirão as discussões com os pais a respeito do que fazer e do que comer.

Por outro lado, a internação, a ausência dos pais, as transformações físicas e fisiológicas responsáveis pelas modificações no paciente, provocarão insegurança e medo. Podem surgir sentimentos de ansiedade a depressão.

É IMPORTANTE esclarecer para a criança ou o adolescente como as coisas são, em linguagem adequada.

Se os pais não souberem como fazer isso, devem pedir orientação para profissionais qualificados, para que não utilizem argumentos inadequados (do tipo “não vai doer”, que apenas serve para incutir medo).

 

IDOSOS

É comum que o idoso precise, rotineiramente, de uma série de cuidados e atenções da família, em decorrência das limitações naturalmente impostas pela idade.

A idade torna a pessoa mais frágil, a recuperação mais difícil e as ocorrências capazes de afetar-lhe a saúde ganham maior atenção.

Quando se trata de uma intervenção cirúrgica, os procedimentos tornam-se, de fato, mais arriscados, tanto pelo risco de vida, como pela possibilidades de sequelas, capazes de lhes tornar a existência ainda mais difícil.

Outro aspecto a ser considerado é que as adaptações necessárias para conviver com o tratamento podem exigir grandes esforços dos familiares. O idoso percebe que isso acontece, o que lhe aumenta o mal-estar do ponto de vista emocional.

Para o idoso, é particularmente difícil lidar com o medo.

De maneira geral, toda a sua existência passa a girar em torno do tratamento, que lhe absorve todo o tempo e todas as energias.

É comum que faltem, para os idosos, outras atividades, outros motivadores, que lhe tornem mais fácil enfrentar os desafios da internação e da cirurgia. As crianças e os adolescentes anseiam pela cura para voltar à vida social e dar continuidade a seus projetos; ao idoso faltam estímulos similares.

O idoso também pode ter tido experiências anteriores com hospitalização, o que é bastante comum.

Quando elas foram coroadas de sucesso, servirão para facilitar a aceitação. Entretanto, aqueles que guardam lembranças ruins de experiências hospitalares, vividas pelo paciente ou por pessoas próximas, estarão muito mais sujeitos a reagir negativamente à ideia e a apresentar sentimentos de medo e insegurança acentuados.

 

CONSIDERAÇÕES

A hospitalização deve ocorrer em um clima de esperança e confiança.

O trauma da hospitalização de crianças é melhor administrado quando é possível a internação em hospitais especializados no tratamento de câncer infantil. Essa disponibilidade, entretanto, inexiste para a maioria da população.

Quanto mais os pais conseguirem transmitir esses sentimentos para os pacientes, tanto mais estarão contribuindo para que eles possam dar entrada ao hospital com disposição e tranquilidade para se submeter ao tratamento. O mesmo aplica-se no caso da hospitalização de idosos: cabe aos familiares transmitir-lhes serenidade e confiança.

Esse ambiente emocional deverá estar presente durante todo o período de internação.

Os familiares experimentarão a percepção de um grande vazio no lar, pela saída do paciente. Esse vazio acentua-se dependendo da personalidade da pessoa que se ausenta: expansividade, iniciativa, hábitos.

Tal sentimento torna-se ainda muito mais doloroso quando se trata de crianças e idosos em situação de grande dependência e será muito mais sentido pelos familiares que mais se dedicarem aos cuidados pessoais.

Os responsáveis devem estar atentos para que este sentimento não prejudique sua capacidade de agir da melhor maneira e que eles não sejam transmitidos, involuntariamente, para o paciente.

Tudo isso passará com o retorno do paciente ao lar.

Pois é precisamente o período de hospitalização que propicia à família preparar-se para acolher o paciente da melhor forma possível, corrigindo comportamentos inadequados, adaptando o ambiente físico e fortalecendo-se emocionalmente para as etapas futuras.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.