QUEIXAS EM ONCOLOGIA



AGRADECIMENTO

À psicooncologista Dra. Rita de Cássia Rezende Maciel pelas orientações e contribuições para este artigo.

 

Muitas vezes comentou-se, neste “site”, que, em se tratando de câncer, “cada caso é um caso”.

Isso se reflete na diversidade dos tratamentos. Em mais de uma oportunidade observou-se que não cabem comparações: as pessoas evoluem de diferentes maneiras e apresentam as mais diversas reações.

O mesmo ocorre com as queixas: tratamentos aparentemente similares são responsáveis por queixas completamente diferentes.

Os tratamentos, de maneira geral, destacam-se pela agressividade.

Esse evidência deve ser encarada como parte do processo de cura. Perseverança e empenho para reduzir os desconfortos ocasionados pelos efeitos colaterais constituem a receita para superar esse período – mais longo para alguns, mais curto para outros; mais difícil para uns, mais suportável para outros.

Os efeitos colaterais manifestam-se por meio de consequências de diferentes naturezas:

físicas e fisiológicas, perceptíveis através de sinais produzidos pelo organismo; e

psíquicas, responsáveis por alterações de comportamentos.

É natural, pois, que surjam as queixas. Estas, por sua vez, são afetadas pelas características de cada pessoa.

 

QUEIXAS E CARACTERÍSTICAS PESSOAIS

O comportamento habitual, antes da doença, pode ser importante referência para compreender as queixas durante o tratamento.

a) Pessoas que pouco ou nada se queixam

Existem aquelas que não desenvolveram o costume de queixar-se dos males que as acometem. Guardam suas dores e ansiedades; raramente as comunicam. Suportam, sem reclamar, grandes sofrimentos. Não querer “aborrecer a família” é um dos argumentos de que se valem.

b) Pessoas que muito se queixam

Por outro lado, há as que reclamam de qualquer coisa que as aflige, mesmo que seja algo, de fato, pouco significativo: um pequeno arranhão, uma leve dor de cabeça etc.

Essas pessoas podem ser levadas a gerar uma grande quantidade de queixas. A cada pequeno desconforto, uma nova queixa…

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Esses dois extremos merecem muita atenção.

No primeiro caso – a pessoa que pouco se queixa – deve-se estar atento porque o surgimento de dor ou desconforto (por exemplo, o intestino deixa de funcionar como deveria; os pés começam a inchar em decorrência de retenção de líquido; uma dor, ainda que leve, que não cede) pode indicar algo a ser investigado ou a ser modificado no tratamento.

No segundo caso – a pessoa que muito reclama – há o risco de não se prestar a devida atenção à queixa. Ocorre o perigoso fenômeno da “banalização da queixa”: familiares e/ou cuidadores deixam de prestar a devida atenção a elas, sendo que uma ou mais poderiam ser indicativas de que algo não está se comportando como deveria. A “banalização da queixa” é, pois, um risco a ser evitado pelos familiares.

 

Nos dois casos, familiares mais próximos e cuidadores devem certificar-se de que as reações previstas aos tratamentos seguem o padrão esperado.

É preciso que todos estejam muito atentos. Se existe queixa, também há a possibilidade de existir um grande desconforto que deve ser avaliado e/ou acompanhado pelo especialista.

O diálogo com o oncologista, nesse momento, é sempre de grande importância.

Contudo, para que este diálogo ocorra, o paciente deve relatar o que acontece com ele. Conclui-se que a troca de informações, a conversa frequente com a pessoa, as observações de seus comportamentos, são indispensáveis ao longo de todo o processo da doença e do tratamento. Cabe aos familiares fazer com que isso aconteça.

As queixas, como já foi citado, estão associadas aos efeitos colaterais dos tratamentos.

 

EFEITOS COLATERAIS

Estes são alguns dos efeitos colaterais (amplamente descritos nas literaturas médicas)  relatados por pacientes:

FADIGA: muito comentada; o cansaço pode ocorrer na forma de crise aguda, cuja única solução é deitar e dormir. A pessoa simplesmente não consegue atuar.

INCAPACIDADE DE CONCENTRAÇÃO: a pessoa perde a capacidade de resolver questões mais complexas, de desenvolver raciocínio mais elaborado, porque simplesmente não consegue manter suficiente concentração. Um paciente relatou que não conseguia concentrar-se para ouvir músicas que apreciava!

LAPSOS DE MEMÓRIA: fatos, informações, dados simplesmente desaparecem de repente; a pessoa não consegue lembrar-se de coisas banais, simples, corriqueiras.

AGITAÇÃO durante o sono; um paciente relatou a síndrome das pernas inquietas. A agitação, enquanto dormia, era tamanha que lançava as cobertas para fora da cama. O sono deixa de ser suficientemente reparador.

PERTURBAÇÃO DO SONO: há pacientes que enfrentam grande dificuldade para iniciar o sono; outros, relatam sono interrompido; outros, ainda, acordam precocemente. A perturbação do sono traz consequências para memória, disposição e para a recuperação geral do indivíduo, porque o ciclo repouso-vigília é de grande importância para o perfeito funcionamento do corpo e da mente.

ALUCINAÇÕES: o paciente pode relatar a presença de coisas ou pessoas que não se encontram presentes (alucinação). É importante que o médico seja informado e as medicações avaliadas.

DELÍRIOS: podem ocorrer modificações importantes no pensamento causadoras dos mais diferentes sentimentos como medo, ansiedade etc. produzindo intenso sofrimento mental. Também nestes casos, é de grande importância que o médico seja informado para a avaliação das medicações.

NEUROPATIAS: nos mais variados graus, afetam a sensibilidade tátil do indivíduo e provocam intenso desconforto, por exemplo, na forma de formigamento de pés, mãos e/ou membros; um paciente relata extraordinária sensibilidade adquirida nas unhas dos pés, a ponto de tornar a atividade de cortá-las um exercício de paciência e cuidados.

ALTERAÇÕES DO FUNCIONAMENTO INTESTINAL: desde a diarreia até a obstrução gastrointestinal. A atuação rápida evita o agravamento do quadro, capaz de provocar intenso desconforto e exigir procedimentos em ambiente hospitalar.

MUCOSITES: incômodos processos inflamatórios das mucosas, capazes de dificultar sobremaneira a mastigação e que precisam ser cuidadosamente prevenidas por meio de procedimentos adequados.

RETENÇÃO DE LÍQUIDOS: provocam inchaço do corpo, principalmente das pernas e dos pés.

PERDA OU ALTERAÇÃO DE PALADAR: comum nos tratamentos quimioterápicos e em radioterapia; pacientes relatam grande perda do paladar, o que ocasiona dificuldade para alimentar-se, que pode agravar-se pelo fenômeno da boca seca. A alimentação é central na recuperação, principalmente quando há significativa perda de peso.

ATROFIAS MUSCULARES, devidas a longos períodos sem movimentação e ao enfraquecimento geral do indivíduo pela ação do tratamento.

ALTERAÇÕES NA PELE, como secura e coceira, capazes de provocar muito desconforto, a ponto de impedir, por exemplo, um sono reparador.

ALTERAÇÕES CARDIO-CIRCULATÓRIAS, que devem ser continuamente monitoradas.

DIVERSAS ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS SIGNIFICATIVAS, pelos efeitos em glândulas endócrinas; por exemplo: hipotireoidismo, vertigem, amortecimento.

NÁUSEAS e VÔMITOS: reações bastante comuns durante o tratamento.

QUEDA DOS PELOS DO CORPO, com reflexos na autoestima.

Estes e muitos outros efeitos colaterais são relatados e observados entre os pacientes dos tratamentos quimioterápicos, radioterápicos e medicamentosos. As pessoas reagem a eles das mais diversas maneiras, dependendo de suas características pessoais.

 

REAÇÕES COMPORTAMENTAIS

Em artigo anterior, comentou-se a respeito das reações emocionais negativas. Os efeitos colaterais contribuem para desencadear essas reações e/ou acentuá-las. Negação da doença, irritabilidade, grosseria, ansiedade, depressão são comumente relatadas e devem ser tratadas para que não interfiram no êxito do tratamento.

Essas reações tipicamente emocionais costumam vir acompanhadas de alterações de comportamento. Os familiares e cuidadores poderão observar:

insegurança: pessoa habitualmente independente, passa a buscar opinião ou apoio para as menores decisões; é como se a pessoa, buscasse alguém para orientá-la e ampará-la – em geral, o familiar encarregado dos principais cuidados.

dependência: aumento significativo do comportamento dependente em pessoas que, costumeiramente, já se mostram dependentes de outras.

– a pessoa torna-se minuciosa em relação a tudo o que acontece com ela; busca explicações detalhadas, faz questão de encontrar justificativas para todas as suas queixas, acompanha os mínimos detalhes do processo de tratamento –questiona médicos, profissionais e cuidadores a respeito dos procedimentos.

– de maneira inversa, a pessoa “delega” ao familiar com o qual mantém relação de dependência, todos os tipos de decisões; prefere desconhecer os detalhes do que acontece; limita-se a realizar os procedimentos determinados.

– a concentração excessiva da pessoa em algo que a incomoda, o que se torna explícito pelos questionamentos e comentários repetitivos a respeito de um mesmo tema ou assunto. Acentua-se o pensamento obsessivo.

– apego intenso à fé, com intensidade além da usual; a pessoa passa a dedicar-se profundamente a práticas religiosas, que não eram de seu costume, inclusive com a participação de grupos de amigos e pessoas da comunidade.

Alerta:

Os familiares devem estar atentos, ao longo do tratamento, para que o paciente não enverede na busca de soluções alternativas.

Não faltarão familiares, amigos e conhecidos que indicarão chás e receitas milagrosas para debelar dores e desconfortos.

Repetimos o alerta dado em artigos anteriores: o médico SEMPRE deve ser consultado ANTES de qualquer experiência. A família não deve se deixar levar pelas informações de leigos bem intencionados, a respeito de determinado produto “não tem efeito colateral”.

As interações com medicamentos são perigosas e TUDO deve ser relatado ao médico.

 

SÍNTESE

A grande quantidade de possíveis efeitos colaterais, nas mais variadas intensidades, constitui um desafio a ser vencido pela pessoa em tratamento e, também, por seus familiares, aos quais cabe a missão de ajudá-la a enfrentar esses efeitos da melhor maneira possível.

A equipe multidisciplinar é importante em todos os processos aqui citados. Fisioterapia e nutrição, por exemplo, podem ser de grande valia para proporcionar apoio e melhorar as respostas do paciente, além de outras áreas especializadas.

O suporte por diferentes especialidades médicas também pode ser um fator decisivo para encontrar soluções – muitas vezes simples – para disfunções e distúrbios que, se não adequadamente tratados, comprometem a qualidade de vida e dificultam (ou, até mesmo, inviabilizam) o avanço do tratamento.

Esse extenso e intenso quadro explica porque muitos pacientes desenvolvem transtornos mentais durante o processo de tratamento.

Ansiedade e depressão, muitas vezes graves, manifestam-se em função do nível de estresse que os efeitos colaterais provocam no paciente (e, também, em seus familiares, principalmente o cuidador principal).

Quando transtornos mentais afetam o desenvolvimento do tratamento é altamente desejável o apoio psiquiátrico e/ou psicológico, para reequilibrar o psiquismo e ensejar, ao paciente, dirigir todas as suas energias ao processo de cura.

As queixas merecem atenção e devem ser devidamente compreendidas e avaliadas; suas causas devem ser investigadas, analisadas e tratadas.

 

Observação: o tema “dor” será objeto de artigo específico.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

Leitura recomendada:

Caponero, R. & Lage, L. M. Quimioterapia. In Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em psicooncologia (pp. 155-167). São Paulo: Summus, 2008.