RELACIONAMENTO COM CUIDADOR PROFISSIONAL



Em texto anterior, denominado “ORIENTAÇÕES PARA CUIDADORES”, apresentou-se uma relação de itens para cuidadores, profissionais ou da própria família. Os comportamentos e procedimentos ali apontados contribuem para que o relacionamento dos cuidadores com o paciente e seus familiares transcorra com eficiência e harmonia.

Neste artigo, apresentam-se ORIENTAÇÕES PARA OS FAMILIARES, dando-se ênfase nos ASPECTOS EMOCIONAIS E COMPORTAMENTAIS que se encontram sempre presentes quando o(s) cuidador(es) assumem a função.

 

IMPORTÂNCIA DA RECUPERAÇÃO NO LAR

Atualmente há amplo reconhecimento da importância de se tratar o doente no seu contexto familiar. No lar, pratica-se em toda a sua riqueza e extensão o tratamento afetivo, humanizado, personalizado.

Muitas vezes, isso somente é possível pela existência do cuidador.

São diversas as situações da vida familiar em que se necessita do apoio de cuidador(es):

– apenas em determinado período diurno; comum quando os familiares são forçados a se ausentar;

– apenas em período noturno, para que o familiar encarregado dos cuidados durante o dia possa repousar;

– em período integral;

– apenas durante os dias úteis, passando os cuidados para os familiares nos finais de semana;

– combinações das situações anteriores.

Além desses aspectos essencialmente práticos, o cuidador é solicitado quando a situação do paciente requer procedimentos que possuem complexidade tal que seja necessária a presença de profissional qualificado.

Independentemente da duração da atividade, o cuidador desempenha um importante papel na recuperação da pessoa e contribui para que a família consiga atravessar o difícil período do tratamento.

O trabalho de cuidar, realizado de maneira harmônica e construtiva com o apoio do paciente e dos familiares, contribui para que a recuperação seja plenamente bem sucedida.

 

SELEÇÃO DO PROFISSIONAL

A seleção do profissional merece a máxima atenção e deve ser realizada com todo o zelo pelos familiares. Ela contempla aspectos técnicos e emocionais igualmente importantes.

É recomendável, principalmente quando as condições físicas do paciente solicitam maiores cuidados, escolher cuidadores entre profissionais que saibam como atuar com segurança, realizando com perfeição todos os procedimentos necessários. Essa escolha, portanto, depende das características do tratamento, da complexidade dos cuidados e do estado do paciente.

Entre os profissionais mais procurados para essa função, encontram-se aqueles com formação em enfermagem ou técnico de enfermagem. Nem sempre, contudo, dependendo de onde reside a pessoa, existe adequada disponibilidade desses profissionais, o que pode levar à busca de outras opções.

Deve-se reconhecer, também, que por razões estritamente financeiras, muitas vezes fica condicionada às limitações do orçamento da família. Essa condição merece, portanto, uma atenção muito maior dos familiares para acompanhar a qualidade dos cuidados prestados ao paciente.

Além dos aspectos estritamente técnicos, é de grande importância a SINTONIA AFETIVA entre paciente e familiares com o profissional selecionado.

 

SINTONIA AFETIVA

O cuidador representa, sempre, uma intromissão forçada no ambiente familiar, mesmo que permaneça poucas horas por dia na residência.

Essa intromissão forçada acontece porque:

– o profissional permanece longo tempo, a sós, com o paciente;

– dependendo da qualificação e demonstração de interesse, com ele o paciente sente-se à vontade para desabafar e trocar ideias, resvalando, naturalmente, para questões familiares e de foro íntimo;

– frequentemente, existem procedimentos invasivos (curativos, higiene e outros) que acentuam a interação entre paciente e cuidador.

Explica-se, pois, a importância da sintonia afetiva entre paciente e familiares com o(a) cuidador(a). Quando ela existe, verificam-se fenômenos de ordem emocional altamente significativos, como os seguintes:

– o paciente sente-se satisfeito com a presença do cuidador; essa satisfação estende-se, também, aos familiares. Quando há sintonia emocional, o paciente nota que o cuidador atua com firmeza, como exigem os procedimentos, e ao mesmo tempo de maneira afetuosa: é surpreendente como as pessoas percebem a diferença entre o atendimento realizado com frieza daquele feito com sensibilidade;

– existe confiança, do paciente e dos familiares, no serviço prestado; a pessoa sente-se segura ao atender às determinações do cuidador e percebe-se confortável em assim proceder;

– o paciente, além de sentir-se satisfeito, aguarda a presença do cuidador. Quando este chega, é comum que ele sinta genuína satisfação e desenvolva expectativa favorável para a realização dos procedimentos necessários;

– a interação entre cuidador e paciente vai muito além dos procedimentos técnicos: inclui o diálogo, a troca de ideias e, com isso, as horas apresentam-se mais prazerosas; o cuidador, sob muitos aspectos, torna-se uma agradável companhia.

Buscar, pois, essa sintonia entre paciente e cuidador é um cuidado extremamente recomendado quando se trata da SELEÇÃO DO PROFISSIONAL. Com ela, um excelente relacionamento torna-se praticamente assegurado.

 

INTERFERÊNCIA DO CUIDADOR

Todas as circunstâncias apontadas sugerem que o cuidador possa ser percebido como uma pessoa que, por força de seu trabalho, interfere na privacidade da família.

A empatia entre ambos é rapidamente percebida por todos.

Surge então um RISCO: a mesma tão desejada empatia, pode servir para abrir a porta leve do ciúme. NÃO É MOMENTO PARA ISSO! É importante que a família reconheça que isso possa estar acontecendo e corrija-se para evitar que um relacionamento altamente favorável entre paciente e cuidador se desfaça, com prejuízo para ele.

Um exemplo de como isso pode acontecer é o caso do paciente que tecia longas conversas com sua cuidadora a respeito de temas de interesse comum, valendo-se de seu conhecimento acadêmico a respeito daqueles assuntos. Tornou-se visível, para os familiares próximos, o quanto isso dava de satisfação à profissional!

Em vez de ciúmes, a família deve desenvolver uma RELAÇÃO AFETIVA com o cuidador.

 

ACOLHIMENTO DO CUIDADOR

A forma como o cuidador é acolhido pela família constitui uma demonstração de como poderá desenvolver-se o trabalho e o relacionamento entre todos. Os primeiros contatos são de grande importância para estabelecer a continuidade dos trabalhos.

A família deve demonstrar que valoriza o trabalho do cuidador e que, para isso, irá acompanhar suas atividades. Trata-se de demonstrar interesse, e não desconfiança.

É importante que a família tenha sensibilidade para os comportamentos do paciente que possam prejudicar sua relação com o cuidador. Se essa possibilidade  já é conhecida pela família, deve ficar bem clara nas primeiras tratativas.

Além disso, no transcorrer do tratamento, inclusive por efeito medicamentoso, o paciente poderá apresentar – conforme já se comentou em texto anterior a respeito dos EFEITOS COLATERAIS DO TRATAMENTO – comportamentos inadequados, capazes de dificultar as relações com o profissional. A família deve estar atenta para a possibilidade de isso vir a acontecer e esclarecer o cuidador a respeito.

O cuidador perceberá a disposição da família em apoiá-lo e em acompanhar seu trabalho. Isso o deixará muito mais fortalecido para superar os desafios inerentes à prática profissional. A situação torna-se insustentável quando a família omite-se, não reconhece as dificuldades que a pessoa enfrenta e cria um ambiente emocional francamente desfavorável ao seu trabalho.

A disposição da família em adotar uma postura de apoio e de acompanhamento deve estar clara para o cuidador desde o acolhimento inicial.

Faz parte do processo de acolhimento do cuidador propiciar-lhe, se possível, um espaço privativo para colocar suas coisas. Esse procedimento ganha em importância quando mais de um cuidador atende a pessoa. Nesta situação, espera-se que cada cuidador faça uma “passagem de turno” para o próximo, por meio de anotações técnicas que lhes ensejem uma comunicação eficiente a respeito das condições do paciente. Essa prática é padrão quando se trata de profissional qualificado.

 

ACOMPANHAMENTO DO TRABALHO DO CUIDADOR

O acompanhamento do trabalho demonstra a importância que a família dá à recuperação do paciente e ao trabalho que o cuidador realiza.

Estas são algumas recomendações:

– Observar que o cuidador atue de maneira a fazer o que é melhor para o paciente; nem sempre o que o cuidador considera o mais adequado será o melhor, porque a pessoa em tratamento encontra-se acostumada a uma rotina de vida ligada a fatores familiares e culturais. Por exemplo, ajustar o horário do banho às preferências da pessoa.

– Assegurar-se de que o paciente é exigido e responsabilizado em tudo o que se encontra ao alcance dele. A palavra-chave é autonomia.

– Assegurar-se de que não existe superproteção, pela relutância do cuidador em exigir da pessoa determinados desempenhos, potencialmente desagradáveis.

– Evitar que o cuidador envolva-se afetivamente com o paciente a ponto de “ter dó”, limitando atividades ou procedimentos que possam ocasionar dores ou desconfortos – desagradáveis, porém, necessários. No tratamento de crianças e idosos essa é uma situação particularmente sensível.

 

NOTA:

Em vários municípios encontra-se o serviço de saúde domiciliar, formado por médico e enfermeira, que atendem o paciente acamado na residência. Quando necessário, convocam outros profissionais para o atendimento especializado. Alguns planos de saúde oferecem esse tipo de atendimento. Há um efeito psicológico notável para o paciente, que se sente valorizado e seguro pela presença do profissional.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O.; MACIEL, R. C. R. Câncer e família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2016.

 

LEITURAS RECOMENDADAS:

Lione, F. R. Dor: aspectos médicos e psicológicos. In: Carvalho, V. A. et al. (Org). Temas em psicooncologia (pp. 373-381). São Paulo: Summus, 2008.

Figueiredo, M. T. A. & Bifulco, V. A. A psicooncologia e o atendimento familiar em cuidados paliativos. In: Carvalho, V. A. et al. (Org). Temas em psicooncologia (pp. 373-381). São Paulo: Summus, 2008.