RETORNANDO À VIDA



O tratamento é bem sucedido!

Inicia-se nova etapa no processo: o ex-paciente deve reassumir o pleno controle de suas ações.

Para significativa parte dos ex-pacientes, isso acontece naturalmente, sem que exista necessidade de algum apoio ou preparo especial, além do habitual (fisioterapia, nutrição). Aos poucos, retoma-se a rotina anterior.

 

RESTRIÇÕES

Para uma parte dos pacientes, a doença e o tratamento, por suas agressividades, podem ocasionar restrições. A maior parte dessas restrições mostra-se temporária. Elas incluem, por exemplo:

Contato com pessoas, especialmente em aglomerações e locais fechados.

Pacientes transplantados perdem a resistência imunológica. Surge a necessidade de evitar contato com outras pessoas, até que as vacinas sejam novamente tomadas e o corpo recupere a resistência imunológica perdida. Permanecer isolado pode ser muito difícil para muitas pessoas. Contudo, é um esforço necessário e que hoje, felizmente, é atenuado pela possibilidade do contato virtual através das muitas formas de comunicação à distância.

Essa limitação pode ser importante dependendo do tipo de trabalho que a pessoa realiza, da necessidade de frequentar escola e de hábitos individuais ou familiares.

Ela também afeta o recebimento de visitas, que não devem levar possível contaminação ao lar do ex-paciente.

 

Limitação ou redução de movimentos

Durante o tratamento, e também pela ação da doença, podem surgir lesões, capazes de ocasionar limitação para movimentos articulares. Também pode ocorrer afetação do ritmo e ou da intensidade dos movimentos.

Essas limitações são muito perceptíveis em pacientes idosos, cuja recuperação motora é mais lenta.

As consequências da limitação ou redução de movimentos podem ser maiores para a retomada das atividades no caso de profissionais cujas atividades exijam agilidade e flexibilidade. É o caso de atividades técnicas em geral e profissões que demandam força e movimentação, como ocorre com mecânicos, trabalhadores de obras civis, esportistas etc.

 

Mudanças fisiológicas

Funções digestivas, pulmonares, cardiocirculatórias e outras podem ser afetas pela ação da doença e/ou dos medicamentos.

Algumas das limitações poderão ser de recuperação lenta e exigirão que o paciente reveja seus hábitos e atividades. A alimentação, por exemplo, pode ter que ser ajustada às possibilidades da pessoa.

Atividades que exigem boa condição física, combinando força, flexibilidade e resistência, poderão tornar-se fora do alcance. Terão que ser substituídas por outras, ou realizadas de maneira diferente.

Essas mudanças também podem afetar pessoas cujas atividades exigem deslocamentos demorados (vendedores, supervisores, consultores, especialistas etc.) em que as melhores condições de alimentação, movimentação e cuidados pessoais nem sempre encontram-se presentes.

 

O QUÊ FAZER?

Observe-se que existem pessoas que convivem com muitas limitações (diabéticos, hipertensos, acidentados) e NÃO TIVERAM CÂNCER. Mesmo assim, são PESSOAS SAUDÁVEIS E ATIVAS, que desenvolveram um estilo de vida adequado a elas.

O ex-paciente deve concentrar o foco em suas CAPACIDADES.

Muitas das restrições simplesmente desaparecem com o tempo. Outras permanecem, mas incorporam-se à maneira de viver da pessoa e passam a fazer parte do seu estilo e método de vida.

É imperioso que a pessoa aceite-se como ela é, encare com disposição sua nova realidade e encontre maneiras para CONVIVER COM AS LIMITAÇÕES E SUPERÁ-LAS.

Persistência é, sempre, a palavra-chave.

Cada limitação deve ser vencida.

Sugestão: começar enfrentando os desafios menores. Pequenas vitórias despertam a motivação para os grandes enfrentamentos.

Vejam-se os exemplos:

– Paciente com grave lesão de coluna, em tratamento de fisioterapia. Desafio autoimposto: dar o laço no cordão do sapato. Pouco a pouco, foi encontrando a posição mais adequada, que lhe permitisse alcançar os pés. Parece simples? Para ele, foi uma vitória importante.

– Paciente que teve comprometida a noção de distância entre objetos. Solução encontrada: cuidar da pia da cozinha. A atividade de lavar e colocar para secar os objetos (pratos, talheres, louças, copos, xícaras) requer grande concentração e desenvolve a percepção e a habilidade motora. Em alguns meses recuperou-se completamente.

Atividades aparentemente banais exigem grande esforço de coordenação mental. Distância, formato, apreensão do objeto, controle dos movimentos constituem um formidável desafio para o cérebro.

As atividades do cotidiano constituem ações de terapia ocupacional.

Elas exigem atenção e percepção de detalhes e atuam positivamente sobre o sistema musculoesquelético. Contribuem para a recuperação do tônus muscular e dos movimentos, em geral dificultados pelas atrofias dos tendões e músculos.

 

HÁBITOS E DEPENDÊNCIAS

A situação é muito mais difícil quando o indivíduo apresenta dependência de álcool, fumo ou outra substância.

Fora do ambiente hospitalar, devolvido à sua rotina, o indivíduo dependente terá que enfrentar a nova realidade. A substância que o dominava não mais pode ser ingerida.

A alteração de hábitos arraigados também é um notável desafio. Isso pode incluir, por exemplo, a escolha de novos tipos de alimentos, a exclusão de outros não mais adequados às condições do organismo – coisas que não são facilmente aceitas.

É possível que o acompanhamento psicológico mostre-se indispensável para auxiliar na promoção das mudanças necessárias e, também, para lidar com novas questões emocionais, tema do próximo artigo.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O.; Maciel, R. C. R. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2016.