RETORNO À VIDA: REAÇÕES EMOCIONAIS



O retorno às atividades após um período longo, difícil, permeado de desafios e incertezas, mais a adaptação às novas condições de vida decorrentes de limitações e restrições (citadas em artigo anterior) trazem consequências emocionais. Para muitas pessoas, o apoio psicoterapêutico é necessário, para que essa etapa transcorra da melhor maneira.

Muitas situações, a seguir comentamos algumas delas, merecem particular atenção, porque afetam o equilíbrio emocional do paciente e, também, dos familiares que mais estiveram presentes durante o tratamento.

A “ALTA” FAMILIAR

Os familiares insistem em acompanhar o paciente às consultas médicas e aos exames. Monitoram-no. Não é incomum que apontem riscos e dificuldades para o pleno retorno às atividades, justificados por receios e preocupações. Trata-se da dificuldade em aceitar que o paciente, há pouco tempo à mercê de todos, agora possa (e deva) cuidar de si mesmo.

O RETORNO DA SEXUALIDADE

O organismo recupera-se como um todo.

O cônjuge que cuida, ainda imbuído de intensos e importantíssimos sentimentos de proteção, espanta-se com o comportamento da pessoa. Ainda percebe o(a) companheiro(a) como indefeso(a), merecedor(a) de cuidados.

Fica-lhe difícil compreender o retorno da libido!

 

REENCONTRO COM PARENTES E AMIGOS

É comum que alguns parentes e amigos tenham se mantido distantes durante a doença. O câncer assusta. O reencontro com essas pessoas pode ser motivo de algum constrangimento.

Surgem inúmeras “desculpas” – ainda que a pessoa não as solicite. Essas desculpas tornam-se ainda mais constrangedoras pelo uso de frases estereotipadas do tipo “sempre estivemos com você em pensamento”, “nunca deixamos de rezar”, “você não imagina o quanto agente se preocupou”.

A vida continua, os laços devem ser reatados. O parênteses aberto pela doença deve ser fechados.

 

A VOLTA AO TRABALHO

A pessoa, naturalmente, sentirá grande emoção pelo fato de poder retomar suas atividades profissionais. A emoção do retorno não deve dificultar as soluções práticas que o bom senso ditará em cada caso.

O profissional pode ter sido substituído temporariamente por outro; os negócios, afinal, não param. O bom desempenho do substituto pode sugerir que este passe a ocupar definitivamente aquela posição e a Organização pode preferir realocar aquele que saiu, para não perder a continuidade do que se faz. É importante que essa decisão, caso aconteça, não afete a autoestima do ex-paciente. É uma decisão gerencial típica e assim deve ser encarada.

O ex-paciente pode, também, ter perdido oportunidades, por exemplo: a participação em treinamentos específicos; a inclusão em algum programa de reconhecimento realizado por ocasião do seu tratamento. Esses fatos não devem ser motivo de desmotivação ou frustração; são ocorrências que atingiriam qualquer empregado na sua situação. Outras oportunidades ocorrerão no futuro.

No ambiente de trabalho, mesmo contando com a solidariedade dos dirigentes e colegas, há situações que conduzem a  pessoa a apresentar reações emocionais negativas que podem não ter qualquer relação com a realidade. Alguns exemplos:

– sentimentos de insegurança e medo, quando os efeitos colaterais refletem-se na capacidade de raciocínio ou na habilidade operativa, ainda que passageiramente;

– percepção de que é “diferente” do que era ou dos demais, principalmente se há lesão (ainda que insignificante ou não perceptível para os outros);

sensação de que os outros estão “facilitando” as coisas.

Essas reações emocionais podem prejudicar a autoestima e a reintegração ao grupo. Para atuar em relação a elas, cabe aos familiares prestar atenção às queixas ou insinuações que a pessoa traga para o lar e que acabam sendo manifestas nas conversas.

 

RECEIO DE VOLTAR AO TRABALHO

Pode ocorrer o fenômeno inverso. Habituada à segurança do lar, à proximidade dos familiares, a pessoa sente-se insegura em retornar à rotina do trabalho, muitas vezes pautada pelo ambiente de competição, onde eclodem conflitos com fornecedores, clientes e colegas.

Isso pode levar a pessoa a protelar o retorno, encontrando justificativas para isso.

Esse medo pode ser também acentuado pela natureza das lesões. Algumas delas, como a mastectomia, apresentam graves consequências psicológicas, ainda que não sejam visíveis para as demais pessoas.

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ATENÇÃO ÀS REAÇÕES EMOCIONAIS

As reações emocionais podem ser as mais diversas.

Ansiedade em uns, medo em outros, depressão em outros. Elas são particulares a cada pessoa e, muitas vezes, impossíveis de se prever ou imaginar.

Por esse motivo, a ATENÇÃO DA FAMÍLIA é essencial. Cabe aos familiares mais próximos permanecer atentos a sinais que indiquem a presença de desafios emocionais que a pessoa poderá ter dificuldade para enfrentar sem o auxílio de outras ou, mesmo, de profissional qualificado – psicólogo e/ou psiquiatra.

SÃO IMPORTANTES:

– O retorno às atividades da vida diária.

– A retomada do relacionamento afetivo e social.

– O exercício da autonomia.

– A volta ao trabalho.

 

A vida recomeça com a cura. Os ajustes necessários devem ser feitos para que a vida siga seu curso.

A MANUTENÇÃO DA AUTOESTIMA É FUNDAMENTAL para lidar com as questões de natureza emocional.

 

 

Algumas chaves para o sucesso:

– presença de amigos; retorno à vida social;

– contato com os colegas de trabalho; reassumir responsabilidades;

– atividades de lazer;

– troca contínua de mensagens por meio das redes sociais;

– envolvimento nas questões do lar.

OCUPAÇÃO É FUNDAMENTAL.

Essas recomendações são ainda mais importantes quando se trata de paciente com danos significativos e irreversíveis. Voltaremos a esse tema em próxima artigo.

Quando necessário, o apoio psicológico ou psicoterápico deve ser buscado.

 

FONTE:

FIORELLI, J. O., MACIEL, R. C. R. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2016.

 

LEITURAS RECOMENDADAS:

Setúbal, D. C. & Dóro, M. P. Transplante de célula-tronco hematopoiética: visão geral. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 172-186). São Paulo, Summus, 2008.

Macieira, R.C. & Maluf, M. F. Sexualidade e câncer. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 303-314). São Paulo, Summus, 2008.