TRANSFORMAÇÕES FÍSICAS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES



A) TRANSFORMAÇÕES FÍSICAS EM CRIANÇAS

As mudanças físicas e na aparência, provavelmente, afetam muito mais os pais do que os filhos.

As crianças ainda não desenvolveram a forte ligação psicológica que os adultos apresentam em relação às suas aparências. As imposições socioculturais não tiveram tempo de marcá-las na mesma intensidade com que ocorre entre a população adulta, tão dependente dos conceitos contemporâneos de beleza.

As transformações físicas – amputação, mutilação – entretanto, não deixarão de assustá-las. Elas se impressionarão com o que lhes acontece e sofrerão por isso.

Por outro lado, no ambiente hospitalar, a criança estará em contato com outras crianças, ou mesmo adultos, também submetidos a procedimentos similares. Elas estarão entre seus iguais. Essa situação concorre para que elas aceitem as novas condições muito mais facilmente do que os adultos.

A história de vida seguinte é ilustrativa. Uma garotinha enfrentou grave mutilação que lhe roubou quase todo o movimento de uma das pernas. Essa perna, pela falta de estimulação, sofreu significativa atrofia, limitando os movimentos e causando perceptível dano estético. Essa limitação não a impediu de estudar e desenvolver-se profissionalmente. Ao contrário do que se poderia imaginar, optou por uma carreira profissional em atividade marcada por intenso contato com o público! Alegre, despojada, aprendeu a desfrutar do melhor da vida!

Crianças são curiosas e perguntam.

Os pais devem responder, em linguagem adequada à faixa etária, as questões formuladas, empregando absoluta sinceridade. Elas compreenderão as explicações e aceitação os fatos como eles são. As crianças possuem notável capacidade para entender as explicações.

A situação merece particular atenção e cuidados fora do ambiente hospitalar.

Há pessoas que demonstram curiosidade e, o que é pior, aversão pela aparência da criança. A criança percebe, notavelmente, quando é tratada como um ser diferente, estranho.

Ela deve ser preparada para essas situações. Muitas vezes, elas ocorrem porque as pessoas simplesmente não sabem como lidar com crianças em situações tão especiais.

A atuação dos pais junto a professores, por exemplo, pode ser de grande valia para romper esse tipo de barreiras e facilitar a aceitação da criança e sua interação com os demais colegas. Essa é uma ação que continuará necessária durante as etapas posteriores do tratamento.

 

B) TRANSFORMAÇÕES FÍSICAS EM ADOLESCENTES

O adolescente encontra grande dificuldade para aceitar grandes danos estéticos porque, durante a adolescência, a imagem pessoal recebe extraordinária importância. O adolescente a percebe como um elemento essencial à marcação da identidade, para a identificação com o grupo e para a conquista amorosa.

O dano físico – amputação ou mutilação – será percebido como catastrófico se não for muito bem trabalhado pela família e pelos amigos.

O papel dos amigos é crucial: o adolescente não pode perder o sentido de pertencer ao seu grupo – um fenômeno psicológico muito associado a inúmeros elementos de identificação.

Não é uma questão simples.

Ela está presente na preparação para a cirurgia, nas visitações e através do tratamento.

A dimensão do desafio é compreensível.

Ocorrendo amputação, imagine-se a situação de um jovem que pertence a um grupo que pratica regularmente esportes (surf, futebol, vôlei… são inúmeros os exemplos), ao passar de participante a expectador. O efeito será ainda maior se, além de participar, era um indivíduo que se destacava entre os demais.

Efeito semelhante trará a mutilação, quando o grupo participa com relativa regularidade de eventos sociais, culturais, esportivos, em que a aparência física constituí um dos denominadores comuns do processo de aceitação e obtenção de sucesso.

Essas questões acentuam-se ainda mais quando a transformação física significa rever as perspectivas profissionais. O adolescente pode já ter dedicado um longo período de preparação para uma atividade que exige determinados requisitos (são inúmeras as profissões que exigem destreza ou alguma forma de competência física).

Cabe aos pais iniciar a preparação para enfrentar essas difíceis e dolorosas situações, desde o conhecimento do diagnóstico e das possíveis consequências do tratamento. Eles também, pais, serão gravemente afetados pelas transformações físicas e sofrerão igualmente consequências psicológicas.

O apoio psicoterapêutico costuma ser de muita valia para que o paciente e os pais superem o desafio.

 

C) A VIDA CONTINUA

O emprego de cirurgias reparadoras encontra-se sujeito ao binômio: disponibilidade financeira e condições do paciente.

Elas sempre são mais procuradas quando os danos à estética encontram-se na face.

Infelizmente, uma grande parcela da população possui escassos recursos para procurá-las, ou vê-se limitada a ganhos apenas parciais, dentro de suas possibilidades.

Por outro lado, apesar de todo o impacto das transformações físicas, é preciso lembrar que a vida vai além da estética corporal.

  • O ser humano é altamente adaptativo. Não faltam exemplos de pessoas que se adaptam a condições de vida desafiadores, com o mais absoluto sucesso. O caso de um preparador físico que se tornou-se paraplégico constitui um exemplo eloquente: a cadeira-de-rodas não o impede de exercer com êxito a profissão.
  • Novas expectativas podem ser criadas. As pessoas, principalmente jovens, possuem notável capacidade de aprendizagem. O que parece ser um caminho único, facilmente se comprova, é apenas um entre muitos outros que cada indivíduo pode seguir. Sempre é hora de rever planos e objetivos.
  • Nas adversidades, as pessoas conhecem quem, verdadeiramente, as ama. As amizades que se fortalecem nos momentos mais difíceis tornam-se extremamente valiosas e permanecem por toda a vida. Poucas coisas são tão gratificantes para uma pessoa quanto encontrar outras que as aceitem como elas são.

Finalmente, cabe lembrar que as adversidades também constituem um momento de grande importância para todos que as enfrentam por que elas convidam a prestar atenção a coisas que vão muito além do material. A sociedade contemporânea é dominada pelo apelo ao consumo, o que afasta as pessoas do componente espiritual da existência.

Justamente quando percebe que precisa enfrentar as transformações do corpo, a pessoa ganha a grande oportunidade para descobrir dimensões da vida que se encontravam ocultas sob a materialidade.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

LEITURA RECOMENDADA:

Valle, E. R. M. & Ramalho, M. A. N. O câncer na criança: a difícil trajetória. In Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em psicooncologia. São Paulo: Summus, 208.