UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA



“O que deixamos à porta da UTI é a nossa vaidade, o nosso orgulho, a nossa ocasional arrogância”, alerta o Dr. Moacyr Scliar em seu livro “Territórios da Emoção – crônicas de medicina e saúde” (Cia. das Letras).

Pela natureza das intervenções, muitas vezes de grande complexidade, associadas ao estado possivelmente fragilizado do paciente, ocorre a necessidade de cuidados em UTI.

Quando isso acontece, é comum a quebra de expectativa: a remoção do paciente sem (ou com um mínimo) aviso prévio representa um sinal de que alguma coisa não está indo bem. Essa sensação, entretanto, não se justifica.

Por outro lado, a ida do paciente para a UTI sempre constitui motivo de ansiedade, pois trata-se de um local restrito e completamente diferente dos demais.

 

ASPECTOS PARTICULARES À UTI

O ambiente de UTI pode aumentar o desgaste emocional do paciente, por fatores como os seguintes:

– não existe privacidade; é comum que as separações entre pacientes seja feita apenas por biombos;

– existe movimentação da equipe hospitalar, a qualquer momento;

– não se pode desfrutar da companhia de familiares e amigos, gerando sensação de isolamento;

– outros pacientes encontram-se presentes, alguns em condição delicada e claramente perceptível;

– ouvem-se ruídos produzidos por aparelhos e pelos próprios pacientes.

Os familiares também passam por desgaste emocional provocado pelo desconhecimento do que está ocorrendo com o paciente e pela sensação de perda total de controle dos acontecimentos.

Até a transferência para a UTI, todos os procedimentos eram acompanhados; de um momento para outro, deixa-se de ter conhecimento do que acontece no tratamento e de como está o paciente.

 

A passagem pela UTI constitui um dos períodos mais difíceis e angustiantes da hospitalização.

Um dos quadros mais dolorosos é a internação de uma criança em UTI. O sofrimento dos pais é indescritível.

Entretanto, é na UTI que os pacientes dispõem de:

  • acompanhamento contínuo;
  • presença de profissionais preparados para qualquer emergência;
  • monitoração permanente;
  • toda uma estrutura preparada e dedicada exclusivamente para os pacientes que ali se encontram.

Para que isso assim funcione, é imprescindível que a UTI possua sua forma particular e especial de funcionamento.

 

ORIENTAÇÕES PARA ACOMPANHANTES E FAMILIARES

Os acompanhantes e familiares devem considerar que:

– Em situações de grande complexidade, o paciente requer um suporte altamente diferenciado para assegurar-lhe as melhores condições de superação daquela etapa do tratamento. A internação na UTI tem essa finalidade.

– O médico que atende na UTI deve evitar envolvimento emocional excessivo com os familiares. Todas as situações que ele vivencia são críticas e ele não pode deixar que as pressões familiares, carregadas de muita emoção, influenciem seu comportamento e suas decisões.

– Os familiares devem compreender de que não há motivo para pressionar – inutilmente – a equipe da UTI. A equipe obedece um protocolo de procedimentos testado, rigoroso e altamente confiável.

– O período de visitação é muito reduzido. Portanto, deve ser bem aproveitado, para que o paciente o aproveite ao máximo, compartilhando-o com as pessoas mais próximas ou com aquelas com que possui maior vínculo afetivo.

– As pessoas que não puderem visitar o paciente devem ser compreensivas e aguardar o retorno dele ao quarto ou ao domicílio.

 

Mais uma vez observamos que nestas situações difíceis, o apego à espiritualidade possui o condão de reduzir o sentimento de descontrole causado pela doença e a sensação de se encontrar só, pelo fato de colocar as questões em uma esfera que vai além do material. Estatísticas nos Estados Unidos sugerem que uma terça parte dos adultos americanos apega-se à espiritualidade ou à prece, quando oprimida por preocupações dessa natureza.

A espiritualidade não se atém a princípios religiosos; ela independe da crença de cada um e encontra-se ao alcance de pessoas que não professam qualquer religião.

A hospitalização, contudo, chegará ao seu final, com o atingimento dos objetivos propostos para a intervenção.

Chega o momento da alta e o retorno do paciente ao lar – tema do próximo artigo.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.