VIDA DIÁRIA DO PACIENTE DURANTE O TRATAMENTO



Durante a fase de tratamento, que pode ser longa e trabalhosa, TRÊS grandes OBJETIVOS interdependentes devem orientar as ações dos familiares:

– QUALIDADE DE VIDA

– IMAGEM PESSOAL e

– AUTONOMIA.

 

(A) QUALIDADE DE VIDA DO PACIENTE

O foco deve ser: VALORIZAR A SUBJETIVIDADE.

A meta consiste em assegurar que o paciente RECEBA O QUE MAIS O SATISFAZ.

Portanto, NÃO É “proporcionar o melhor”!

No tratamento, em ambiente doméstico, deve-se dar oportunidade ao paciente de realizar escolhas pessoais algo que dificilmente é possível no ambiente hospitalar.

São MUITOS os itens que podem ser ajustados às preferências do paciente. Por exemplo:

CARDÁPIO: dentro dos limites estabelecidos pelo médico e ou nutricionista, existem sempre muitas escolhas possíveis.

HORÁRIO DE BANHO: é uma das mais importantes atividades diárias e, portanto, deve ser assim considerada. Há pacientes que preferem banhar-se ao acordar; outros, antes de adormecer; outros, no meio da tarde.

CONFORTOS: o pré-aquecimento do banheiro pode representar muito conforto para pacientes debilitados, que sentem bastante frio; dispor de uma cadeira de banho pode representar, além do conforto, sensação de segurança e facilidade para a higienização; a forma de locomover-se para o banheiro (em cadeira de rodas, com andador, amparado) pode ser ajustada às condições do paciente e suas preferências.

Também podem ser ajustados às preferências do cliente vários procedimentos obrigatórios, tais como:

HIGIENE BUCAL: para prevenir e ou curar complicações dentárias e na cavidade bucal; podem ser procedimentos de longa duração; a maneira de realizá-los pode ser adaptada às condições do paciente e das instalações domésticas. Uma ação aparentemente simples, como o uso do fio dental, pode tornar-se complexa e exigir solução alternativa.

EXERCÍCIOS FÍSICOS: importantíssimos para aumentar a qualidade de vida, podem parecer exaustivos e de difícil execução; são essenciais para recuperação do controle e do funcionamento do organismo. Os familiares devem cuidar para que não causem desconforto excessivo ao paciente. Se isso acontecer, ele encontrará argumentos para rejeitá-los ou pouco se empenhará neles.

PEQUENAS TAREFAS: sempre que ao alcance das condições físicas do paciente, a realização de tarefas domésticas ou profissionais deve ser estimulada. Esse procedimento mantém o paciente “conectado” à vida, proporciona-se o sentimento de participar, de integrar o núcleo familiar. Eventualmente, também lhe possibilita o contato com o ambiente profissional, através de email, whatsapp ou outros mecanismos.

LAZER: atividades prazerosas devem ser estimuladas para que os períodos de inatividade transcorram em ambiente emocionalmente favorável. Inclui ouvir música, assistir filmes, brincar com as redes sociais.

 

(B) IMAGEM PESSOAL

Fernando Pessoa assinalava que “o nosso traje se torna uma parte de nós”.

Vivemos em uma sociedade que empresta grande importância à aparência: faz parte do espírito da época. É, pois, de grande importância a preservação da aparência do doente, ainda que ele possua reduzidos contatos com pessoas não pertencentes ao núcleo familiar.

A pessoa DEVE parecer saudável e demonstrar que está bem cuidada, mesmo estando doente. Isso inclui:

– cabelos sempre penteados;

– roupas limpas;

– barba bem cuidada;

– unhas lisas, limpas e aparadas;

– utilizar pijama apenas para dormir, trocando-o por roupa comum após a higiene matinal;

Os objetos, medicamentos, aparelhos e equipamentos de uso pessoal do paciente devem obedecer aos mesmos cuidados quanto à limpeza e organização.

É de se destacar a atenção do cônjuge que, diariamente, colocava uma nova flor em local adequado no quarto onde a esposa se recuperava! Ou o cuidado do cônjuge que providenciou um pequeno móvel para acomodar todos os medicamentos e instrumentos para que não ficassem “espalhados” pelo quarto.

Cuidar da estética do ambiente é sempre bom. A estética compõe o quadro da imagem pessoal.

 

(C) AUTONOMIA

A autonomia deve ser buscada na realização dos cuidados pessoais e no deslocamento.

O objetivo é simples: REALIZAR O MÁXIMO DE ATIVIDADES SEM O AUXÍLIO DE OUTRAS PESSOAS.

VANTAGEM: a realização de atividades autônomas aumenta a AUTOESTIMA do paciente e confirma, para ele e para os familiares, que ele caminha para a recuperação completa.

 

ENQUANTO O PACIENTE PERMANECE NO LEITO

O paciente deve ser estimulado a realizar todos os seus autocuidados: higiene bucal, pentear os cabelos, trocar de roupa, cortar unhas etc. Tudo isso, sem dúvida, é limitado pelas suas possibilidades de movimentar-se com segurança e eficiência.

Ao redor do leito pode-se dispor de apetrechos auxiliares para uso do paciente, como telefone, jarra de água, mesa auxiliar para colocar sobre a cama etc.

Quanto mais cedo o paciente conseguir deixar o leito, mesmo que com o auxílio dos familiares, melhor será.

 

QUANDO O PACIENTE CONSEGUE DESLOCAR-SE

Os cuidadores devem estar atentos para evitar PATERNALISMO. Essa postura é importante, porque:

– a imobilização, quando longa, ocasiona atrofia muscular e dificuldade para manter o equilíbrio; essa situação leva o paciente a desenvolver medo de se arriscar aos movimentos;

– muitos pacientes relutam, por motivos culturais, em valer-se de bengala ou andador; preferem que outras pessoas os amparem, em vez de enfrentar, sozinhos, as dificuldades iniciais do movimento autônomo. Também é comum que os familiares tenham receio de que o paciente sofra alguma queda. Os familiares devem INSISTIR para que o paciente aceite o complemento.

Veja-se o caso do senhor L.F., 63 anos. Assim que conseguiu deslocar-se, lentamente, com o uso de bengala, passou a cuidar da limpeza da pia após as refeições!

Essa atividade, para ele, era complexa. O controle das mãos, por efeito de neuropatia periférica combinada com atrofia muscular, encontrava-se bastante prejudicado. L.F., contudo, valeu-se do exercício de manipular os utensílios de cozinha e os acessórios de limpeza para recuperar o domínio completo dos movimentos de mãos e braços. Chegava à pia com uso da bengala; a esposa dispunha convenientemente tudo que deveria ser lavado por ele; pacientemente, L.F. realizava as tarefas e colocava os utensílios para secar.

Para ele, realizar essa tarefa, duas vezes por dia, tornou-se motivo de realização pessoal e o ponto de partida para a prática de outras tarefas no lar. As atividades domésticas, em geral, exigem movimentos finos, com muita atenção a detalhes e, portanto, constituem excelente fisioterapia.

 

– DESLOCAMENTO FORA DO DOMICÍLIO

Há casos em que, para evitar contaminação, o paciente vê-se impedido de deixar o domicílio por um longo tempo. Entretanto, na maior parte das situações, a limitação é apenas de natureza física.

A solução mais simples e segura é o uso da cadeira de rodas, porque ela conjuga rapidez, mobilidade e segurança. Em muitos locais ela encontra-se disponível, sem necessidade de o paciente transportá-la consigo. Infelizmente, o brasileiro apresenta o traço cultural típico de rejeitar o uso desse excelente apoio para a movimentação – diferentemente do que acontece em outros países.

Ela é o instrumento ideal para movimentar-se em shopping center, cinema, templo, locais de lazer. É comum a existência de lugares reservados aos que a utilizam. O paciente que gostaria de rever o ambiente de trabalho, conversar com os colegas, tem essa opção simples e segura.

O uso da cadeira de rodas inicia-se dentro do domicílio; em seguida, amplia-se para as proximidades; mais tarde, para o local de trabalho. Tem continuidade nos espaços sociais, com familiares, amigos e colegas.

Sua utilização pode combinar-se, também, com o da bengala e do andador (e vice-versa) conforme a conveniência do paciente e as condições do local.

 

SÍNTESE:

A retomada da vida faz-se já no transcorrer do tratamento.

O paciente deve ser estimulado a cuidar de si mesmo, a utilizar todas as facilidades de que dispõe no domicílio, a movimentar-se com o mínimo de auxílio de outras pessoas, a frequentar os mais diversos ambientes e a realizar tarefas – tantas quantas consiga fazer, mesmo que de maneira mais lenta e controlada.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

LEITURA RECOMENDADA:

Costa Neto, S. B. & Araujo, T. C. C. F. Qualidade de vida do enfermo oncológico: um panorama sobre o campo e suas formas de avaliação. In Carvalho, V. A. et al. (Org.). Temas em psicooncologia (pp. 315-350). São Paulo: Summus, 2008.