À ESPERA DO DIAGNÓSTICO



Realizada a primeira consulta, surge um período de espera, que pode ser longo ou curto, até o retorno com os exames solicitados.

Para muitos, trata-se de um tempo em que expectativa, ansiedade e medo combinam-se para tornar os dias intermináveis.

É comum que os pacientes, a esta altura do processo, já se encontrem afetados por esperas anteriores:

– do surgimento dos primeiros sinais ou sintomas até a decisão de marcar uma consulta;

– da marcação da primeira consulta até sua realização, cercada de expectativas;

– da primeira consulta até, em muitos casos, à nova consulta com um especialista.

Vem, agora, o aguardo dos resultados dos exames solicitados. Tudo, pois, concorre para que exista sofrimento emocional do paciente e de seus familiares.

Esse tipo de sentimento estará presente em todas as etapas da evolução da doença, até a cura definitiva, de formas e intensidades variáveis dependendo das características psicológicas dos envolvidos. Sempre: cada caso é um caso.

Tratam-se de fenômenos psicológicos relacionados com as emoções que dominam pacientes e seus familiares durante esses difíceis períodos, em que se coloca à prova o equilíbrio emocional de cada um dos envolvidos.

Um desses fenômenos é o que denominamos “tempo psíquico”.

O tempo psíquico difere do tempo real: este, segue o ritmo marcado pelo relógio; o tempo psíquico obedece um ritmo particular, único de cada pessoa, determinado pela mente. Depende de como o indivíduo vivencia suas emoções.

Por esse motivo, uma espera de “poucos dias”, para muitas pessoas, pode parecer “interminável” para outras. As pessoas devem compreender que essa realidade existe e que a ansiedade que um paciente ou familiar demonstra, por ter que aguardar os acontecimentos, é absolutamente real e justificada.


Registramos, aqui, dois alertas importantes:

  1. Mesmo nesta etapa, após a consulta com o especialista, ainda se encontram pessoas que continuam a protelar as informações: não se apressam a realizar os exames indicados. O medo as domina, infelizmente. É uma reação de passividade, à qual a família deve estar atenta.
  2. Ocorre também o seguinte: o médico consultado prescreve algum medicamento destinado a trazer alívio aos sintomas desagradáveis, relatados pelo pacientes. Há pessoas que, sentindo o alívio ou até o desaparecimento dos sintomas, apegam-se à esperança de que isso representará a cura definitiva. Desaparece, por exemplo, uma dor!

Mais uma vez é necessária muita atenção: a investigação deve continuar. Os exames devem ser realizados.


Retomemos, pois, o nosso tema.

Pacientes e familiares devem refletir a respeito do seguinte: se a doença existir, ela já estará instalada. As providências que poderiam ter sido tomadas já o foram: o médico foi consultado, os exames foram solicitados e estão sendo realizados. Agora resta, simplesmente, aguardar.

Chegou o momento de conhecer o máximo a respeito da doença, se realmente for um câncer, e determinar a melhor forma de enfrentá-la, para que se estabeleça o tratamento adequado. Para isso, o médico necessita dos exames.

Infelizmente, devido a conhecidíssimas dificuldades na área dos serviços de saúde, principalmente os públicos, muitos pacientes enfrentarão demoras para realizar os exames; estas, poderão lhes parecer excessivas. É natural que o temor aumente, pois, afinal, o paciente ainda aguarda pelo diagnóstico.

Costuma surgir, então, a pergunta: o que fazer durante esse difícil período? Como suportar esta espera?

Respostas a estas indagações dependem das características e das situações de cada pessoa. Cada uma delas é única e o que proporciona bons resultados para algumas, pode não funcionar com outras.

Vejamos algumas reações recolhidas da observação de pacientes em diversas situações.

  • Sabemos de pessoas que mergulham no trabalho. Concentram-se nos afazeres, para que o tempo “passe mais depressa”. O risco seria dedicar-se tanto às atividades a ponto de deixar o tratamento de lado. Essa estratégia, entretanto, não funciona tão bem para outras, que não conseguem se concentrar em suas atividades porque encontram-se com o pensamento voltado para a possível doença.
  •  Há pessoas que dispõem de recursos suficientes e valem-se de viagens e outras atividades de lazer para “enganar” o tempo. Aproveitam para ver ou rever lugares que apreciam e ou visitar parentes distantes. Algumas, programam a “viagem dos sonhos”. Para muitas, é uma solução, ainda que passageira.
  • Estratégia conhecida (e oportuna), e que pode combinar-se com outras, é buscar informações a respeito de tratamentos, admitindo a hipótese de um diagnóstico desfavorável. Muitas vezes, essa busca de informação é praticada, também, pelos familiares e acaba por se revelar útil nas fases seguintes, se necessário.
  • Há pessoas, entretanto, que se recusam a receber qualquer informação a respeito da doença. Em vez disso, preferem que algum familiar se encarregue de obtê-la.
  • Outros indivíduos refugiam-se em algumas atividades com as quais possuem grande afinidade e/ou que lhes proporcionam muito prazer, quando a condição física ou fisiológica não constitui obstáculo para praticá-las. É o caso do apreciador de música que se concentra em estudar, ou simplesmente ouvir, intensamente, tudo o que lhe agrada. Aplica-se às artes em geral e, também, a muitos passatempos que solicitam atenção concentrada.
  • São comuns as pessoas que aproveitam esses períodos para “colocar as coisas em ordem”: organizar livros, armários, pertences em geral – coisas que, costumeiramente, deixa-se para algum momento que, rotineiramente, nunca chega. Agora, é a vez! Cite-se o caso do indivíduo que revisou seu extenso arquivo de mais de cem mil fotografias, catalogando-as e organizando-as cuidadosamente.
  • Encontram-se indivíduos que reativam uma vida social que se encontrava em segundo plano. Programam visitas, encontram-se com pessoas, reveem amigos. Alguns usam essa aproximação para relatar o que as aflige – acalmam-se quando desabafam, contam para os outros o que lhes pode acontecer; outros, simplesmente omitem a suspeita e concentram-se na atividade social.
  • Assim como há pessoas que buscam equilíbrio emocional conversando com outras, existem aquelas que convivem com a incerteza na intimidade do lar.  Isolam-se.

 

Outra dúvida frequente refere-se a o que comentar com as pessoas que se encontram nesta situação de aguardar o diagnóstico.

Estas são algumas sugestões:

  • Para muitas pessoas, é altamente contraindicado ouvir expressões do tipo “não fique assim, isso não é nada”, “fulano passou por isso e resolveu tudo com um rápido tratamento”, “tenha fé que tudo se resolve”. Há pessoas que simplesmente não as suportam.
  •  Sempre, em primeiro lugar, deve-se ouvir. Com esse objetivo, estimula-se a pessoa a desabafar, a relatar suas ansiedades. Para muitas pessoas, o simples fato de ser escutada é o essencial!
  • Além do medo da doença, costuma surgir um novo tipo de temor relacionado com as dificuldades da vida: como será o futuro? Por esse motivo, pode ser altamente benéfico para a pessoa, colocar-se à disposição para o que for possível, em uma demonstração clara de que ela não está e não estará só; em vez disso, poderá contar com aqueles que a estimam.

 

Alertamos a respeito das diferenças de personalidade das pessoas. Em situações de estresse, quando as emoções negativas, como o medo, encontram espaço para atuar sobre o psiquismo, algumas características podem acentuar-se e prejudicar as reações desejáveis.

Isso aplica-se aos pacientes e, também, aos familiares – principalmente aqueles que convivem com a pessoa.

Estas são algumas situações típicas e que merecem atenção:

  • Existem pessoas naturalmente obsessivas. Elas apegam-se a seus pensamentos, a suas dúvidas; sofrem com elas, cada vez mais. Não conseguem livrar-se das ideias que as afligem; isso vai, pouco a pouco, minando suas resistências, transformando seus comportamentos, provocando-lhes reações desagradáveis ou inadequadas.
  • Algumas são pouco expansivas; calam-se quando enfrentam problemas; esse comportamento que lhes é habitual tende a se tornar ainda mais acentuado e dificultar a troca de ideias e informações a respeito de seu estado, deixando de relatar, aos familiares, sintomas e reações aos medicamentos.
  • Há pessoas que, em estado de grande tensão emocional, ampliam a percepção para tudo o que as incomode e/ou atemorize. Tornam-se muito mais sensíveis. Os sintomas parecerão acentuar-se, sem que nenhuma ocorrência fisiológica o justifique. Por exemplo, surgem novas dores; aumentam aquelas já existentes.
  • O desempenho no trabalho, quando for o caso, pode ser afetado. Em muitas situações, é importante que os superiores e colegas saibam o que está acontecendo para evitar interpretações enganosas; o estado emocional do indivíduo pode afetar profundamente seu desempenho, inclusive acarretando prejuízos financeiros.

Tudo o que foi dito para o paciente adulto, pode também aplicar-se a seus familiares. Nas famílias, é comum o compartilhamento de sentimentos.

A situação mostra-se particularmente pungente quando se trata de pais de crianças ou adolescentes com suspeita de câncer.

O sofrimento desses pais é imenso. Tudo o que puder ser feito para lhes proporcionar equilíbrio emocional no transcurso dessa difícil travessia deve ser feito, pois a criança ou adolescente dependerá fortemente do apoio deles para enfrentar a doença.

Os pais precisam ter isso em mente: a capacidade de reação de seus filhos dependerá muito da capacidade deles mesmos de enfrentar o processo de tratamento.

 

Encerrando este artigo, cumpre destacar que, nas situações em que o equilíbrio emocional de pacientes e ou familiares demonstra-se bastante prejudicado ou comprometido, recomenda-se procurar um apoio psicológico especializado.

O profissional especializado saberá, por exemplo, orientar aquelas pessoas que se deixam dominar, excessivamente por pensamentos obsessivos ou de temor, pela ansiedade ou pela depressão – situações essas que devem ser cuidadosamente evitadas, para que não dificultem ou impeçam o sucesso do tratamento.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.