DIAGNÓSTICO NA ADOLESCÊNCIA



A adolescência: diferenciais importantes

A adolescência é a época da vida em que as aspirações, os sonhos, mais se encontram presentes. São eles que dirigem a vida dos jovens.

Para o adolescente, o tempo parece infinito: tudo lhe será possível!

Durante a adolescência a pessoa sente-se forte, confiante, capaz de superar grandes obstáculos no amor, no estudo, na profissão, no lazer – enfim, em todos os campos das atividades humanas.

São marcantes, na adolescência, os grupos de amigos.

Eles dividem opiniões, ideias e interesses. Apoiam-se mutuamente. Estabelecem projetos e participam de atividades comuns. Muitas dessas amizades perduram por toda a vida.

Nesse universo – aparentemente tão favorável e ao mesmo tempo de curta duração, pois a adolescência passa com relativa rapidez – vive o adolescente.

De um lado, ele encontra-se ligado à família – da qual depende afetiva e economicamente. De outro lado, inicia-se o delicado processo de separar-se dela, para conquistar o seu espaço na sociedade.

A certeza de ser saudável e forte, a autoconfiança, os sonhos, proporcionam ao adolescente a fantástica motivação que apresenta quando se debruça sobre algum projeto, como se nada pudesse demovê-lo de sua iniciativa.

 

Primeiros sinais e sintomas

Todo esse cenário torna-se incerto quando aparecem os primeiros sinais e sintomas.

O primeiro grande risco consiste, precisamente, em ignorá-los, acreditando que a natureza se encarregará de corrigir o que quer que seja. Afinal, com a energia típica da adolescência, as doenças são fatos isolados e, em geral, facilmente administradas na absoluta maioria dos casos.

O diagnóstico, pois, para o adolescente, constitui um grande “choque narcísico”: ele toma consciência da fragilidade humana, ensina a Profa. Dra. Rita de Cássia Rezende Maciel.

Surgem sentimentos de solidão, de abandono e, de maneira mais ou menos repentina, toda aquela percepção de segurança, de capacidade de enfrentar grandes desafios, desmorona-se implacavelmente. A pessoa defronta-se com o desconhecido e passa a temê-lo.

Os mitos, já comentados em outros artigos, contribuem para acentuar o medo. Além disso, alguns cânceres podem conduzir a riscos como o da infertilidade: outra consequência terrível para o adolescente.

Sobram, pois, motivos, para que toda a atenção seja dada a sinais e ou sintomas capazes de sugerir a presença de câncer. A celeridade no início do tratamento é essencial.

 

Restrições

Acostumados ao sentimento de liberdade, sempre muito caro na adolescência, o diagnóstico força o adolescente a perceber que, em vez dela, deverá percorrer um processo – que pode ser longo – em que não mais será o soberano de suas ações. Em vez disso, fará apenas o que lhe for possível e permitido.

Quimioterapia, radioterapia, medicamentos, intervenções cirúrgicas compõem o quadro de possibilidades que afetarão seus comportamentos. Cada procedimento representa algum tipo de restrição.

Essas restrições afetam, de imediato, o relacionamento com os grupos de amigos.

Esses grupos podem ter-se formado por afinidades diversas – por exemplo, a prática esportiva; viagens; estudos; escolhas musicais etc. O tratamento poderá impossibilitar que algumas dessas atividades continuem a ser praticadas no todo ou em parte.

A frustração de perder a liberdade junta-se ao sentimento de medo e incerteza provocado pela doença em si. A ele somam-se, eventualmente, possíveis sentimentos de culpa por ter demorado a dar a devida atenção a algum sinal ou sintoma. Assim, desenha-se o complexo pano de fundo do quadro emocional que emoldura a vida do adolescente a partir do diagnóstico.

 

Recomendações

Compartilhar a doença com os amigos mais próximos é altamente indicado. O grupo, constituído pelos amigos inseparáveis, poderá ser grande fonte de apoio emocional, trazendo serenidade e esperança ao longo do tratamento. Amigos poderão estar presentes em momentos cruciais, mesmo que essa presença aconteça pela via das redes de comunicação, tão ao gosto da juventude.

Os pais devem estimular os filhos para que compartilhem com os amigos a notícia da doença. Estes, ao adquirir conhecimentos, saberão melhor escolher a forma de acompanhar e apoiar o amigo durante o tratamento.

Os pais devem estar especialmente atentos a sentimentos de culpa – do adolescente e deles mesmos, por não terem prestado a atenção, em determinados momentos, quando alguns sinais se manifestaram.

Em vez disso, devem buscar a união familiar, o fortalecimento da confiança, a crença nos avanços da medicina. Pais, irmãos, parentes próximos devem unir-se em torno desses sentimentos.

O jovem deve ser estimulado a continuar a interagir com seus amigos, a participar de tudo o que lhe for possível e a cumprir com suas obrigações – em relação à família e à escola.

Descuidar da higiene, da arrumação dos pertences, da autoimagem, do retorno de contatos telefônicos, da participação nas redes sociais constituem sinais a se observar e atuar para corrigi-los. Se necessário, empregando suporte psicoterapêutico, por profissional qualificado.

A vida, enfim, continua, com seus deveres e responsabilidades – embora diferente em diversos aspectos. Com esta perspectiva o adolescente deve estar preparado para iniciar o tratamento.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

LEITURAS RECOMENDADAS:

Bigheti, A & Valle, E. R. M. Compreendendo as vivências de adolescentes com câncer: análise fenomenológica do TAT. In Carvalho et. al. (Org.). Temas em psicooncologia (pp. 218-231). São Paulo: Summus, 2008.

Schliemann, A. L. A morte e o morrer na infância e adolescência. In: Incontri, D.; Santos, F. S. (Org.). A arte de morrer – visões plurais (pp. 50-63). Bragança Paulista: Coenius.