DIAGNÓSTICO: O MOMENTO DA VERDADE



Em texto anterior, tratou-se das questões emocionais que afloram durante o período de realização de exames, que culmina na consulta em que se terá o diagnóstico conclusivo.

Nesta consulta, fortes emoções estarão dominando pacientes e familiares. Afinal, nela se confirmará aquilo que, muitas vezes, já se sabe ou se suspeita, acrescentando detalhes que indicarão a gravidade, a extensão e os próximos passos dos tratamentos.

Há situações bem específicas em que o médico opta por não revelar a verdade ao paciente. O médico sabe que a comunicação do diagnóstico provoca grande transtorno emocional no paciente e, em função do estado de saúde da pessoa, decide apresentar o diagnóstico apenas a seus familiares.

Neste artigo, destaca-se a situação em que a família decide não revelar a realidade à pessoa doente.

Esta atitude, em geral, não leva a bons resultados por vários motivos:

– Manter um “segredo” dessa natureza não é fácil; os medicamentos e procedimentos indicarão, obviamente, a natureza da doença e o paciente perceberá isso.

– Muitos comportamentos deverão ser alterados ou sofrerão influência do tratamento; o paciente terá dificuldade para compreender o que acontece se desconhecer o verdadeiro motivo.

– Os tratamentos poderão afetar importantes decisões do paciente, relacionadas com o andamento de sua vida e de seus projetos pessoais. Ele não poderá ser privado de informações capazes de influenciar essas decisões (por exemplo, a continuidade dos estudos, a realização de um matrimônio, o início de um novo negócio, a utilização de recursos financeiros etc.).

– A decisão de ocultação trará embaraços para o médico e sua equipe no relacionamento com o paciente, pois afetará a comunicação entre eles, criará melindres e o resultado disso será absolutamente nulo.

Essa dificuldade em relatar a verdade ao paciente sugere que os familiares não conseguem admitir a realidade representada pela doença. Em vez de aceitá-la, transferem para o paciente a missão de aceitar o diagnóstico, com a justificativa de “poupá-lo”, principalmente quando se trata de criança ou idoso.

verdade acaba sendo o melhor caminho na absoluta maioria das situações.

A revelação do diagnóstico possibilita ao paciente:

– Compreender a sua real condição de saúde, o que lhe permite repensar seus planos de vida e ajustar seus projetos e atividades às possibilidades que o tratamento lhe permitirá e às limitações, ainda que transitórias, dele decorrentes.

– Tomar providências para adaptar-se ao processo de enfrentamento da doença, tanto no plano familiar como no plano profissional.

– Compreender que os sinais e sintomas que apresenta possuem uma razão de ser e que não se encontra à mercê do desconhecido. Se o diagnóstico pode assustar, por um lado, ele também traz a mensagem de que será enfrentada uma doença que outros já superaram e, portanto, também o paciente poderá vencer.

 

Questão crucial, no momento da revelação do diagnóstico, é ouvi-lo e compreendê-lo.

O inconsciente atua para reduzir o impacto doloroso da revelação; as pessoas ouvem, porém, a compreensão pode ser dificultada e ou inadequada. Perdem-se informações ou estas são registradas de maneira confusa.

É importante que paciente e familiares compreendam que o profissional oncologista procura dialogar e esclarecer, em detalhes, o processo de tratamento.

Isso significa que o médico não ocultará os riscos e os possíveis sofrimentos e desconfortos para o paciente e seus acompanhantes. É importante que as dificuldades sejam muito bem compreendidas, para que a família prepare-se para as enfrentar.

Muitas das providências exigirão planejamento antes de serem colocadas em prática; outras, solicitação recursos financeiros que poderão não estar disponíveis. Outras, ainda, poderão exigir a participação de terceiros envolvidos (no emprego, na escola). Em artigo seguinte trataremos de todas essas questões de natureza eminentemente prática.

O oncologista deixará claro, pois, que o tratamento do câncer apresenta grandes desafios e requer o empenho de todos. Seu objetivo é que todos compreendam a realidade, para que surpresas desagradáveis não ocorram.

Portanto, ao receber o diagnóstico, é importante que paciente e familiares:

ouçam com a máxima atenção;

– certifiquem-se de que compreendem tudo o que o oncologista explica;

esclareçam todas as dúvidas, mesmo aquelas que possam parecer insignificantes;

perguntem, sem qualquer receio;

comentem qualquer aspecto que lhes pareça obscuro ou que mereça maiores detalhes ou explicações.

Uma sugestão é: ANOTAR AS ORIENTAÇÕES.

Paciente e acompanhantes estarão vivendo um momento de forte emoção; isso pode afetar a qualidade da memorização de orientações e instruções. O que está anotado nunca será esquecido ou mal interpretado.

Há pacientes notavelmente detalhistas; querem “tudo” explicado nos mínimos detalhes. Neste momento, esta característica torna-se bastante vantajosa e deve ser assim compreendida.

Há, entretanto, pacientes que “bloqueiam”, deixam de ouvir. Eles simplesmente possuem medo do que será dito. Essa característica exige muito mais atenção e cuidado do acompanhante.

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A revelação do diagnóstico acarreta, por outro lado, reações emocionais perceptíveis e que devem, desde já, ser consideradas.

Essas reações dependem das características de personalidade das pessoas, das fases da vida em que se encontram (nas relações familiares, na escola, no emprego), de seus conhecimentos em relação à doença, da maneira como funciona a família.

Trataremos dessas reações e possíveis consequências em próximo artigo.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

LEITURAS RECOMENDADAS:

Pinto, R. N. A identificação e atenção às situações críticas. In: De Marco, M. A. (Org.) A face humana da medicina (pp. 169-173). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

Sontag, S. A doença como metáfora. 3a. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984.