É PRECISO PENSAR NAS COISAS PRÁTICAS



Tratamos, em artigos anteriores, de efeitos emocionais importantes ocasionados pelo diagnóstico de “câncer”.

Contudo, o cotidiano da vida prossegue e exige providências e atitudes indispensáveis ao bom andamento do tratamento que se avizinha.

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CONTAR OU NÃO CONTAR???

Uma primeira questão que se coloca, para muitos pacientes e famílias, é: ocultar ou não o diagnóstico.

Na sociedade brasileira, ensina a psicooncologista Dra. Rita Maciel, é comum o comportamento de “não falar” para “fazer de conta que não existe” (em “Câncer e Família – mitos e realidade”, pág. 110, Ed. Juruá).

Esse é um comportamento ruim, que conduz ao fingimento coletivo e que, ao final, acarreta prejuízos a todos.

A única e melhor atitude é CONTAR A VERDADE.

Reconhecemos que, no ambiente de trabalho, a notícia de um câncer pode colocar em perigo oportunidades profissionais e até mesmo o emprego, dependendo da postura ética do empregador, de como ele percebe a responsabilidade social dele mesmo e da empresa.

Isso leva, infelizmente, muitos empregados a tentarem ocultar a doença, embora seja óbvio que não terão sucesso nessa iniciativa. Logo começarão os tratamentos e tudo será naturalmente revelado.

Também existe risco para a união do casal, quando os elos afetivos são frágeis. Nesse caso, o câncer expõe cruamente essa fragilidade.

Há famílias que simplesmente não aceitam a doença. Tratamos desse assunto em artigo anterior, no mito 12 e, também, no mito 2. Infelizmente, os mitos que cercam o câncer encontram-se disseminados na sociedade.

A conclusão é uma só: A VERDADE É O MELHOR CAMINHO.

A exposição da verdade permite ao paciente e aos familiares compreender a real situação afetiva que cercará o tratamento. Os ganhos emocionais são amplamente compensadores.

A divulgação do diagnóstico entre amigos e conhecidos também propicia o surgimento de inúmeras manifestações de apoio, muitas vezes surpreendentes e inesperadas, pelas pessoas que possuem real afeição pelo paciente e seus familiares.

A verdade revela ao paciente e familiares as pessoas que, DE FATO, estarão dispostas a cooperar durante o tratamento.

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BUSCA DE INFORMAÇÕES

Esta é uma providência prática indispensável, que deve ser imediatamente iniciada.

Tudo o que puder ser conhecido a respeito da doença e do tratamento poderá ser útil, seja para dar segurança durante o processo (que pode ser longo), seja para instruir a respeito das providências iniciais.

As informações permitem que:

– todos possuam as mesmas ideias a respeito da doença e do tratamento;

– as pessoas estabeleçam expectativas baseadas na realidade;

reduzam-se as incertezas que cercam os procedimentos e tratamentos.

Informações coletam-se com profissionais (de medicina, enfermagem, fisioterapia, nutrição, psicologia e outros que tenham oportunidade de conviver com os tratamentos), amigos, conhecidos, entidades e associações que tratam da doença, além de muitos sites especializados.

Deve-se, contudo, tomar muito cuidado com as informações transmitidas por leigos, por notícias fantasiosas transmitidas pela mídia e pela Internet (por exemplo, as “substâncias milagrosas” e similares).

É surpreendente a quantidade de pessoas que possui alguma vivência com algum tipo de tratamento de câncer! Isso não acontece por acaso: o câncer é uma doença amplamente disseminada na sociedade. Elas podem transmitir informações úteis a respeito de dificuldades que enfrentaram em seus tratamentos e de como elas foram solucionadas.

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RECURSOS FINANCEIROS

Este é um tema delicado e importantíssimo.

Os custos dos tratamentos variam enormemente, dependendo do tipo de tratamento, das características do plano de saúde, da localização física da moradia (se em grande centro ou não, da distância aos locais de tratamento), da forma de obtenção da medicação, além de outros fatores.

Estas são questões que precisam ser muito bem compreendidas:

  1. Haverá diminuição de renda familiar (pode ser que o paciente ou algum familiar tenha que reduzir suas atividades por um tempo e isso poderá afetar os ganhos financeiros)?
  2. Será necessária a contratação de cuidadores? Quantos  serão necessários? Como serão contatados? Qual será a remuneração e a forma de pagamento?
  3. Existirão outros profissionais, não pertencentes à equipe de oncologia, que também deverão acompanhar o paciente (nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo, por exemplo)? Como serão escolhidos e remunerados?
  4. Haverá a necessidade de alguma adaptação do ambiente físico na moradia ? Como isso será feito? Quanto custará? Essa questão pode ser bastante complexa em alguns casos, como os de transplante de medula óssea.
  5. Haverá uso de equipamentos adicionais como andador, cadeira de rodas, cadeira de banho e outros, notadamente durante o período mais crítico do restabelecimento?
  6. Valores a reembolsar pelo plano de assistência à saúde: como serão solicitados; como será obtida a documentação comprobatória e como será informada; os reembolsos serão totais ou parciais; nesta hipótese, o que não estará coberto?

Quando a doença trouxer redução significativa da renda familiar (mais comum entre autônomos), é importante enfrentar e resolver a dificuldade o mais rapidamente possível, para que todos possam se concentrar no tratamento.

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ATIVIDADES DIÁRIAS

Pequenos detalhes podem ocasionar, em momentos difíceis (por exemplo, durante a internação do paciente), muita dificuldade para serem equacionados. Por exemplo:

  1. Levar e trazer crianças à escola;
  2. Cuidar da residência (refeições, roupas, limpeza);
  3. Resolver compromissos (pagar contas, comparecer a eventos como reunião de pais, culto religioso e outros);
  4. Obter medicamentos fornecidos pela rede pública de saúde. É comum que alguns medicamentos tenham fornecimento controlado e somente possam ser obtidos em locais e horários específicos; nesses casos, será preciso o deslocamento de uma pessoa com disponibilidade de tempo e meios para obtê-los.

 

Essas providências podem requerer acertos com diaristas, empregadas, empresas de transporte e outros fornecedores de serviços.

Um exemplo: o cuidado com animais domésticos parece uma questão aparentemente banal, mas para muitas pessoas é algo de grande importância, pois eles costumam ser “parte da família”.

Inúmeras providências serão melhor solucionadas com o apoio da família, estabelecendo uma “rede de colaboração”. Isso, entretanto, não acontece “de um momento para outro”.

É preciso que as pessoas conversem entre si e compreendam de que maneira podem colaborar para dar conta das principais dificuldades.

 

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES

Divisão de tarefas pode exigir esforço e desprendimento de todos, principalmente quando não há recursos financeiros para contratar auxiliares e estes seriam necessários. Nessas horas, é preciso que todos se empenhem em cooperar.

Quando o paciente deve ser transportado a intervalos curtos e regulares para outra localidade, convém avaliar a conveniência de uma mudança temporária.

É comum, em centros maiores, a existência de entidades de apoio especializadas em pacientes com câncer. Já nos grandes centros, é habitual a existência de instalações que facilitam a permanência de pacientes e familiares (por exemplo, nas proximidades das instituições que realizam os transplantes de medula).

Soluções que implicam em mudanças temporárias apresentam o inconveniente dos custos, porém, os ganhos em segurança, conforto, comodidade são substanciais e merecedores de avaliação pela família.

 

RECOMENDAMOS QUE, NO CURTO PERÍODO PÓS-DIAGNÓSTICO,

AS PRINCIPAIS PROVIDÊNCIAS SEJAM TOMADAS.

 

Com isso:

– serão evitadas improvisações;

– serão encontradas as soluções mais econômicas e convenientes;

– existirá paz de espírito no início do tratamento;

– todas as energias estarão, futuramente, dirigidas exclusivamente para os procedimentos.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

 

LEITURAS RECOMENDADAS:

Carvalho, V. A. Temas em Psicooncologia. São Paulo: Summus, 2009 (p. 47).

Kóvacz, M. J. A morte em vida. In Bromberg, M. H. P. F., Carvalho, M. M. M. J., Carvalho, V. A. & Kóvacs, M. J. (Org.) Vida e morte: laços de existência (pp. 11-34). São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.

Setúbal, D. C. & Dóro, M. P. Transplante de célula-tronco hematopoiética: visão geral. In: Carvalho, V. A. et al. (Org.) Temas em Psicooncologia (pp. 172-186). São Paulo, Summus, 2008.