HOSPITALIZAÇÃO: ENFRENTANDO O MEDO



A hospitalização, principalmente para a realização de cirurgias, é procedimento comum em tratamentos de câncer.

O médico opta pela hospitalização sempre que a considera como necessária para preservar a vida do paciente, que passa a contar com recursos somente disponíveis no ambiente hospitalar.

A maior parte das pessoas, entretanto, encara a hospitalização com muita apreensão.

De onde vem esse medo?

  1. Um dos motivos é histórico. Em todas as famílias encontram-se relatos de casos em que o hospital era um último recurso, com resultados nem sempre favoráveis. Além disso, os pacientes relatavam um ambiente de dores e sofrimentos.
  2. Essa ideia ainda permanece arraigada na população. Embora os avanços da medicina e das técnicas de cirurgia tenham sido notáveis, a cultura existente – decorrente em parte dos relatos já citados, e em parte de notícias veiculadas frequentemente nos meios de comunicação – reforça o medo ao ambiente hospitalar.
  3. A esse quadro nitidamente cultural, agregam-se relatos e histórias de pacientes que receberam atendimentos precários, incompatíveis com os atuais avanços da medicina, decorrentes de deficiências dos locais em que foram internados – embora por motivos que nada tem a ver com o tratamento do câncer.

Somam-se a esses motivos de natureza histórico-cultural, outros de natureza tipicamente psicológica, emocional, como os seguintes.

  1. Extremo desconforto em deixar o ambiente familiar, doméstico, onde o paciente sente-se “em casa”, vivendo de acordo com uma rotina à qual encontra-se perfeitamente acostumado e que aprecia. O indivíduo não quer abandonar os familiares, os objetos, as coisas que reconhece como suas e que fazem parte de sua existência, “o seu mundo”.
  2. Perda de controle dos acontecimentos; o paciente (e/ou algum familiar) determina todos os procedimentos e a forma de realizá-los. No hospital, estará completamente sujeito às normas da entidade, com horários e procedimentos que serão rigorosamente obedecidos e que não dependerão de suas preferências.
  3. Remoção para um local distante, separando o paciente de suas referências: parentes, amigos, animais de estimação, sons da vizinhança.
  4. Redução de espaço. Em muitas situações, o indivíduo poderá ver-se forçado a compartilhar acomodações com outros pacientes, pessoas desconhecidas, com as quais não possui qualquer espécie de relacionamento. Esse conjunto de motivos contribui para acentuar ou criar um medo da internação , que pode tornar-se ainda maior quando ela for de longa duração.

Várias providências podem ser adotadas para melhorar o estado emocional do paciente. Por exemplo:

– Atualização contínua de informações pelas visitas e acompanhantes. O paciente sente-se participando dos acontecimentos, ainda que de maneira indireta.

– Televisão, se disponível no quarto. Os noticiários colocam a pessoa nos acontecimentos e permitem que ela não perca a noção de tempo.

– Conseguir manter o paciente situado no tempo, mesmo quando não há a possibilidade da televisão ou outra forma de comunicação ampla.

– Dispor, nas proximidades do leito, de objetos pessoais importantes do ponto de vista emocional (fotos, calendário).

 

É preciso, entretanto, considerar as grandes VANTAGENS DA INTERNAÇÃO.

Muitas vezes o tratamento que vem sendo realizado em domicílio ocasiona grandes dificuldades para a rotina das atividades no lar.

A movimentação do paciente, a inadequação do leito e dos equipamentos de banho, a aplicação de medicamentos por via endovenosa, são exemplos de procedimentos que, em domicílio, podem representar grandes contratempos, tanto maiores quanto mais especializado for o serviço. Já o ambiente hospitalar é adaptado para essas circunstâncias e dispõe de equipamentos adequados e pessoal qualificado.

Outra vantagem é a rapidez com que se pode agir no caso de ocorrências com o paciente. Os sinais vitais são monitorados e qualquer oscilação preocupante pode receber rápida intervenção: uma queda de pressão arterial, um aumento ou redução excessivos de batimentos cardíacos, uma dificuldade para urinar ou evacuar etc. No hospital existe estrutura adequada para tais atendimentos, sem a necessidade de remoção do paciente que, além de demorada, pode ocasionar grande sofrimento.

A internação do paciente também possibilita aos familiares reorganizar a rotina familiar, encarando a doença sob outros pontos de vista.

Ao mesmo tempo, ocorrem importantes vantagens do ponto de vista emocional.

Paciente e familiares ganham notável motivação para o enfrentamento da doença, com o objetivo de sair do hospital, de conquistar a tão almejada “alta”. A partir do internamento, paciente e familiares concentram-se exclusivamente no tratamento, sem a necessidade de dividir suas atenções com inúmeras preocupações domésticas.

Outra importantíssima transformação de natureza emocional, é a transferência da responsabilidade pela cura. Enquanto permanece no lar, essa responsabilidade fica nas mãos da família, mesmo que existam diversos profissionais acompanhando o paciente e envolvidos no tratamento (médicos, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionista, fonoaudiólogo, cuidadores). A família acaba por assumir totalmente a responsabilidade, pois cabe aos familiares a escolha dos profissionais e o acompanhamento de seus trabalhos.

No hospital, tudo isso se transforma. A responsabilidade pelo restabelecimento recai, integralmente, sobre a instituição.

As pessoas não precisam mais preocupar-se a respeito de medicamentos, realização dos procedimentos, cuidados imediatos com o paciente. Todas as providências necessárias poderão ser monitoradas pelo acompanhante, se houver, porém, este sempre terá pessoas, do corpo hospitalar, para as quais dirigir suas observações e solicitações. Isso, naturalmente, não acontece no ambiente doméstico.

Nos dias atuais, são muitos os hospitais que dispõem de serviços especializados e totalmente dedicados ao atendimento de pacientes com câncer.

Além disso, como já se comentou em outros artigos, é comum a existência de entidades de apoio aos pacientes e familiares que buscam hospitalização. Essas entidades oferecem serviços de orientação, informação e acolhimento para as pessoas originárias de outros centros urbanos. Por meio dessas importantes atividades, contribuem para facilitar o processo de internação.

 

CONCLUSÃO
Recomenda-se a pacientes e familiares encarar, com serenidade, a necessidade de hospitalização e contribuir para que ela ocorra o mais rapidamente possível, quando indicada pelo médico oncologista.

A família deve organizar o esquema de visitação e, se possível, de acompanhamento, assegurando o melhor suporte emocional para o paciente.

Existem procedimentos hospitalares que, por sua natureza, exigirão uma série de providências da família, antes de se proceder a internação.  Em qualquer situação de hospitalização, a entidade hospitalar estabelecerá todos os preparativos que deverão ser obedecidos, para que o processo transcorra da maneira prevista, obedecendo aos protocolos em vigor.

 

Em próximo artigo trataremos de aspectos particulares da internação quando se trata de crianças, adolescentes e idosos.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.