PÓS-DIAGNÓSTICO: REAÇÕES EMOCIONAIS



No período pós-diagnóstico tomam-se todas as providências para dar início ao tratamento.

É compreensível que o diagnóstico de uma doença grave ocasione graves perturbações emocionais. Essas doenças, de maneira implacável, mostram a fragilidade humana. Nenhuma família encontra-se preparada para esse tipo de diagnóstico.

Surgem, pois, as reações emocionais.

– – – – – –

REAÇÕES EMOCIONAIS

Essas reações manifestam-se através de modificações nos comportamentos habituais. Nem sempre o paciente as percebe; elas são, entretanto, notadas por aqueles que convivem com o doente. Observe-se que familiares também estão sujeitos a elas.

Elas tornam-se mais preocupantes à medida que se prolonga o tempo de espera entre o diagnóstico e o início de tratamento.

Durante esse período, muitas providências estarão sendo tomadas e, por diversos motivos, poderão existir demoras e dificuldades, tais como:

– conciliação de espaços nas agendas de clínicas, hospitais e profissionais envolvidos;

– realização de exames e novas consultas para o estabelecimento do plano de tratamento;

acertos financeiros com os planos de assistência médica.

Essas providências são, em geral, muito mais demoradas quando o atendimento é realizado através do SUS, cujos prazos são reconhecidamente longos e os processos cercados de maiores dificuldades de natureza burocrática.

Será, portanto, um período bastante significativo. Consequência: aumenta o tempo psíquico.

A expectativa, a espera, o passar mais lento do tempo, concorrem para que as pessoas apresentem diversas reações de fundo emocional, merecedoras de muita atenção, para evitar que elas se tornem o início de dificuldades que, mais tarde, afetarão o andamento do tratamento.

Essas reações não devem, também, impedir que decisões e providências sejam tomadas antes que o tratamento se inicie.

Estes são exemplos de reações emocionais típicas:

Risco de depressão. Os familiares devem estar atentos. Alguns sinais: o paciente permanece demasiadamente calada; evita contato com outras pessoas; isola-se; não demonstra energia, vontade de lutar; deixa tudo nas mãos dos familiares; não discute e não procura compreender os procedimentos; trabalha com relutância ou simplesmente abandona suas atividades. A pessoa aceita a fatalidade e submete-se a ela. A depressão é GRAVE e requer o apoio de profissional especializado, psiquiatra e ou psicólogo.

Ansiedade. Comum entre aqueles que possuem um negócio ou atividade que depende de sua presença e que é a única ou maior fonte de renda da família. A ansiedade excessiva pode levar ao surgimento de outras doenças e pode, também, prejudicar a busca de melhores soluções, tanto para o tratamento como para a situação familiar.

Outras psicopatologias. Muitos transtornos emocionais podem combinar-se para tornar o paciente e ou familiares ainda mais fragilizados e, também, para dificultar o relacionamento com o próprio paciente.

– – – – – – –

EXEMPLOS DE MUDANÇAS DE COMPORTAMENTO

Aumento de agressividade: o indivíduo calmo torna-se agressivo; o indivíduo naturalmente agressivo demonstra agressividade ainda maior.

Aumento da dependência: a pessoa mostra-se mais dependente da opinião e da ação dos outros do que o habitual; não consegue tomar decisão; coloca a responsabilidade por suas ações na pessoa do cônjuge ou outro familiar.

Redução da tolerância: o indivíduo mostra-se muito mais intolerante com pequenos aborrecimentos ou dificuldades.

Aumento do consumo de drogas: o dependente de substâncias químicas pode aumentar ainda mais a utilização.

Essas e outras transformações de comportamento podem vir acompanhadas de mudanças fisiológicas importantes, tais como:

Distúrbio do sono; o indivíduo passa a ter muita dificuldade para conciliar o sono, ou passa a acordar muito cedo; o sono deixa de ser reparador.

Alterações no apetite: redução ou aumento do apetite (possivelmente acompanhando estados de depressão ou ansiedade, respectivamente).

Alterações cardiocirculatórias: elevação ou redução de pressão arterial, alterações nos batimentos cardíacos etc.

Qualquer alteração observada deve ser relatada ao médico responsável pelo tratamento, para receber a orientação adequada sobre o quê fazer.

As alterações fisiológicas recomendam que, desde o início do tratamento, a família mantenha-se alerta quanto à necessidade de acompanhamento por profissionais especializados (médicos, psiquiatra, psicólogo, nutricionista), tanto para proporcionar maior bem estar ao paciente, como para prevenir outras situações que poderão dificultar o tratamento.

Todo e qualquer diagnóstico relacionado com o estado emocional do paciente deve ser feito por profissional qualificado, que prescreverá o tratamento adequado, se necessário.

CONCLUSÃO: é muito importante que os familiares prestem atenção aos efeitos emocionais do diagnóstico sobre o paciente e, também, sobre eles mesmos.

As reações emocionais dos pacientes afetam o equilíbrio emocional dos familiares. O afeto, entretanto, funciona nos dois sentidos. As reações emocionais dos familiares também influenciam o equilíbrio emocional do paciente.

– – – – – – –

MANIFESTAÇÕES COMUNS

Estas são algumas manifestações comuns apresentadas pelo paciente.

Ao manifestá-las, o paciente dá indicações, em geral de forma inconsciente, de que precisa de apoio das pessoas e, ao mesmo tempo, proporciona indícios das dificuldades que enfrenta para controlar suas emoções.

Sentimento de desamparo: “o que será de mim?”

Sentimento de incapacidade: “o que será de minha família?”

Percepção de injustiça: “por que eu?”

Decepção: “de que adiantou tudo o que eu já fiz?”

Incredulidade: “não acredito que possa estar acontecendo comigo!”

Incompreensão: “na minha idade, isto não poderia estar acontecendo.”

Desânimo: “meu mundo acabou.”

Rancor: “Deus é injusto. Não mereço.”

Resignação: “Para tudo há um motivo.”

Medo intenso: “Sei que tenho pouco tempo” (medo da morte certa – um dos Mitos); “sei que vou sofrer” (medo da dor); há também o medo da mutilação, o medo de se tornar fisicamente dependente etc.

– – – – – –

Por meio de frases, a pessoa revela temores, sentimentos e emoções que as dominam. É importante prestar atenção a elas e agir para que o paciente compreenda que:

– a realidade dos tratamentos mostra que há um grande percentual de cura;

– ele pode estar sendo vítima de um ou mais dos MITOS que já foram aqui comentados;

– não importa o que ele saiba de narrativas de outras pessoas: CADA CASO É UM CASO.

– – – – – –

O QUE FAZER?

Esta regra de ouro é simples, embora solicite muito empenho de todos:

 

PRESERVAR UM AMBIENTE DE OTIMISMO E

DISPOSIÇÃO PARA O ENFRENTAMENTO DA DOENÇA.

Sempre que possível, recomenda-se:

Manter as tarefas de rotina no ambiente familiar. O paciente, na medida do que lhe for fisicamente possível, não deve ser “poupado” dessas tarefas. As pequenas coisas são importantíssimas para apaziguar e transmitir a seguinte mensagem: a vida continua.

Dar continuidade às atividades de lazer e sociais: assistir filmes, comparecer a festas de famílias, visitar e receber amigos.

Continuar as atividades relacionadas com o trabalho, no lar ou fora dele, ainda que em escala reduzida. Em inúmeros trabalhos, dependendo de como a doença manifesta-se, isso é parcial ou totalmente possível.

– – – – – – – –

As reações emocionais são inúmeras. Elas dependem de cada paciente e, também, da maneira como as coisas acontecem em suas famílias.

Por isso, é MUITO IMPORTANTE que pacientes e familiares DIALOGUEM.

 

A DOENÇA É UMA QUESTÃO FAMILIAR.

 

O TRATAMENTO SERÁ UM TRABALHO DE TODOS.

 

No próximo artigo retomaremos o período pós-diagnóstico, tratando de questões práticas que precisam ser equacionadas antes do início do tratamento.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.