REAÇÕES IMEDIATAS AO DIAGNÓSTICO



Infelizmente, o diagnóstico pode ser positivo para câncer.

Dois tipos de reações do paciente merecem particular atenção, principalmente dos familiares e pessoas mais próximas.

Uma delas é o sentimento de sentir-se injustiçado. Surge a pergunta “por que eu?”.

Infelizmente, para aqueles que gravitam em torno de bens materiais, de luxos e supérfluos, a doença aparece como agressão abominável. Acreditamos que essas pessoas serão bastante beneficiadas se conseguirem voltar-se para sentimentos ligados à espiritualidade, que lhes permitam uma compreensão da vida em outra dimensão.

Outro sentimento merecedor de atenção é a “recusa em acreditar no diagnóstico”. A pessoa nega o diagnóstico para si e para os outros. Esse é um mecanismo de defesa do psiquismo, inconsciente, contra a ideia da morte (muitas vezes acentuada pelo mito, já comentado anteriormente, de que o câncer provoca a morte rápida). Esta reação, contudo, será superada em breve, porque o tratamento exigirá a total dedicação do paciente. Se essa dedicação não existir, a eficiência ficará muito prejudicada e os familiares deverão estar atentos a esse fato.

 

Essas reações acentuam-se na cultura em que vivemos, onde o consumo de bens constitui o farol que dirige os anseios e desejos das pessoas. Vive-se como se a vida fosse infinita e como se a morte, sempre suposta muito remota, não constituísse a única certeza.

Por isso, para muitas pessoas, o remédio é negar a possibilidade da morte. O câncer, entretanto, é o oposto disso tudo. O diagnóstico escancara a inutilidade do apego aos bens materiais e alerta, impiedosamente, que a morte constitui uma realidade, uma certeza, sem data pré-fixada.

A expectativa da morte pelo câncer, entretanto, torna-se pior, em função dos mitos e dos temores a eles associados. Tanto isso é assim que há pacientes e famílias que optam por ocultá-lo.

Não se oculta uma cardiopatia – percebida até como sinal de dedicação, heroísmo (“foi tanta a paixão pelo trabalho que o coitado não resistiu”, costuma ouvir).

A morte pelo câncer, entretanto, nada apresenta de heroica ou gloriosa e a reação ao diagnóstico reflete esse estado de espírito.

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Como, então, reagir ao diagnóstico?

Acompanhemos a reação da senhora M. R. (caso extraído do livro Câncer e Família – Mitos e Realidades).

O médico, sem maiores rodeios, forneceu o diagnóstico do marido. Na sequência, explicou a evolução provável da doença e, ainda de maneira geral, como se desenvolveria o tratamento, com início imediato.

A senhora M. R., segurando as mãos do marido, que se mantinha em silêncio, estático, afirmou convicta: “Nós já enfrentamos muitas coisas juntos. Enfrentaremos mais essa”.

Uma afirmação desse tipo tem importantes efeitos psicológicos:

– divide o peso do diagnóstico;

– mostra para o paciente que ele não está só na luta que se inicia;

– coloca de lado, de imediato, aquelas frases ingênuas e estereotipadas, absolutamente ineficazes, que apenas servem para provocar angústia.

Frases como as seguintes devem ser evitadas:

– “Você é forte, vai aguentar”. Uma frase que apenas acentua a chegada de um grande sofrimento; para nada serve.

– “Vamos ter fé”. A fé, entretanto, não evitou a doença. Outra frase sem sentido.

– “Você não é o primeiro…”. Uma informação absolutamente inútil. A pessoa sabe que não é a primeira, e que nem será a última. Um conhecimento que serve para … nada.

A frase mais importante é aquela que a senhora M. R. utilizou: “nós enfrentaremos”. O paciente sente que terá apoio em sua luta. Ele não está só. Isso faz uma enorme diferença!

O mesmo comportamento deve ser adotado pelos familiares e amigos:

colocar-se à disposição para os momentos difíceis, que vão desde acompanhar às sessões de quimioterapia ou radioterapia, se necessário, até revezar-se no hospital. Um paciente relata o quanto foi importante para ele ouvir de um cunhado: “Você já sabe: conte comigo 24 horas por dia. É só ligar e eu venho imediatamente”;

– ajudar na realização de atividades domésticas ou no cumprimento de compromissos das mais diversas naturezas; isso pode incluir desde ajudar a cuidar de compras e pagamentos, até levar filhos na escola;

– cooperar nas providências relacionadas com os planos de saúde ou com o sistema público de saúde, cujas burocracias terão que ser enfrentadas em algumas situações.

Cônjuges, familiares e amigos desempenham, nesse período, um papel muito importante para manter a estabilidade emocional do paciente e, também, de cônjuge e familiares, principalmente se estes desempenham o papel de cuidadores.

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As reações ao diagnóstico, por parte do paciente, podem incluir diversas formas de manifestação.

  • Há pessoas que preferem isolar-se para meditar.
  • Outras, optam por chorar, na companhia do cônjuge e ou filhos ou pessoas muito próximas.

Essas reações devem ser aceitas com naturalidade, quando isso trouxer conforto ao paciente.

  • Há pessoas, entretanto, que preferem conversar. Para elas, e isso é muito comum, falar a respeito do que lhes acontece pode reduzir a tensão provocada pelo diagnóstico. Aplica-se ao paciente e, também, às pessoas próximas, que com ele compartilham a angústia do momento.

Uma das vantagens de se conversar a respeito é que a doença começa a ser tratada com naturalidade. Ao se falar a respeito dela, das condições do paciente, de suas esperanças, das providências que deverão ser tomadas, pouco a pouco a doença passa a ser compreendida como parte da vida.

Tudo isso acontece com o câncer e, também, com muitas outras doenças graves e que exigem tratamentos complexos e ou de longo prazo.

Acreditamos que as conversações, mantidas com toda a franqueza e objetividade, são úteis para atenuar e enfrentar o estresse agudo da revelação.

Também acreditamos que é muito útil, nessa fase, enriquecer as conversas com a coleta de informações a respeito da doença e de seus tratamentos.

Felizmente, hoje, existem muitas fontes de informações, inclusive por meio de associações (a INTERNET é uma forma poderosa de comunicação) que dão suporte a pacientes, atendendo os relatos dos acontecimentos, dos tratamentos pelos quais passam e de suas reações e proporcionando orientações úteis.

No próximo artigo retomaremos as reações emocionais no difícil e importantíssimo período que sucede o diagnóstico.

 

FONTE:

Fiorelli, J. O. & Maciel, R. C. R. Maciel. Câncer e Família – mitos e realidade. Curitiba: Juruá, 2006.